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Noivo por Três Semanas

Capítulo 5: Um futon, duas mentiras

16 de set de 2026 · 5 min de leitura

Vista de cima do quarto de infância de Aoi à noite, ela e Haruto deitados no chão em lados opostos, olhando para o teto, com o futon novo vazio entre os dois

O quarto era menor do que na memória dela, do jeito que quarto de infância sempre é.

A estante ainda tinha os livros de faculdade. A parede ainda tinha a marca retangular mais clara onde esteve um pôster por seis anos. No canto, empilhados com capricho, os cobertores extras que a mãe tinha separado sem querer dizer nada com isso.

“Eu durmo no chão”, disse Haruto.

“Você tem um metro e oitenta e quatro.”

“Eu durmo dobrado.”

“Você não vai dormir dobrado na casa da minha mãe.” Aoi puxou dois cobertores da pilha. “A gente divide o chão. O futon fica vazio, e amanhã cedo eu amasso ele pra parecer que foi usado.”

Haruto levou dois segundos.

“Isso é bem pensado.”

“Eu sou muito boa nisso. É um talento horrível de ter.”


Eles apagaram a luz às onze e quarenta.

O chão de tatame era duro de um jeito honesto. Do quintal vinha o barulho de um grilo atrasado, desses que insistem até novembro.

Aoi ficou olhando o teto e contando as marcas de madeira, e depois de um tempo desistiu de fingir que ia dormir.

“Kiryū.”

“Oi.”

“Os doces de castanha.”

Silêncio.

“Como você sabia?”, ela perguntou.

“Você leva todo ano.”

“Eu nunca falei isso pra você.”

“Você comprou no sábado retrasado, na loja da estação, com uma sacola da agência na mão.” A voz dele vinha calma do escuro. “Eu estava na fila atrás. Você pediu os de castanha e a moça perguntou se era pra viagem e você falou que era pro seu pai.”

Aoi virou a cabeça, mesmo sem enxergar nada.

“Você é assustador.”

“Eu sei.” Uma pausa. “Desculpa.”

“Não é uma reclamação.” Ela voltou a olhar pro teto. “É que ninguém repara em nada, sabe? Faz uns dez anos que ninguém repara em nada. E aí aparece um cara do oitavo andar que sabe o que eu odeio comer.”

O grilo parou. Voltou.

“Kiryū.”

“Oi.”

“O que aconteceu há dois anos?”


Ele demorou tanto que ela achou que não ia responder.

“Cliente Shirogane”, ele disse afinal. “Reunião de outubro. Eu ia apresentar o plano de migração. Quarenta e cinco minutos, dezoito slides, eu tinha ensaiado catorze vezes.”

“E?”

“E eu comecei bem.” A voz dele não mudou de altura nenhuma vez. “Slide um, slide dois, slide três. No quatro tinha um número que estava errado. Não errado de grave. Errado de vírgula.”

“Ah, não.”

“Eu vi na hora. E aí eu pensei ‘se eu vi, eles viram’, e aí eu pensei ‘eles vão achar que o resto também está errado’, e aí eu pensei que eu tinha que consertar antes de continuar.”

Aoi esperou.

“E eu não consegui falar”, disse Haruto.

O grilo continuou.

“Não foi uma pausa. Foi o ar não passando. Eu fiquei de pé na frente de onze pessoas por um minuto e quarenta segundos sem produzir nenhum som. Depois eu sentei.”

“Kiryū.”

“Alguém terminou por mim. Eu não lembro quem.” Uma pausa curta, quase nada. “Depois disso o Ogawa passou a apresentar. E eu passei a montar. Está funcionando há dois anos.”

“Isso não é ‘está funcionando’.”

“É o melhor que eu tinha.”

Aoi ficou quieta um tempo, escolhendo, e no fim escolheu a verdade.

“Eu já travei também.”

“Você?”

“Uma vez. Não em reunião. Pior.” Ela riu sem vontade. “Foi no velório do meu avô, eu tinha dezenove anos. Pediram pra eu falar e eu abri a boca e não saiu nada, e eu fiquei lá, e minha mãe teve que ir lá e me tirar.”

“Eu sinto muito.”

“Eu não falo disso com ninguém.”

“Eu sei.”


A casa fez aquele barulho que casa velha faz quando esfria.

“Posso te perguntar uma coisa?”, disse Haruto.

“Pode.”

“Por que você mentiu?”

Aoi abriu a boca pra dar a resposta pronta. A resposta pronta tinha um ano, três meses e dezoito dias, e funcionava bem: a mãe não parava com os omiai, ela quis paz, foi mais fácil.

Ela ouviu a própria respiração por um tempo.

“Eu tava montando um móvel”, disse.

“O quê?”

“No dia que eu inventei você.” Ela puxou o cobertor até o queixo. “Setembro do ano passado, domingo. Eu tava sentada no chão da cozinha montando uma estante que veio com três parafusos a menos. A parafusadeira sem bateria. Eu tinha trabalhado trinta e uma horas naquela semana e ia trabalhar mais no domingo.”

“E ela ligou.”

“Terceira vez no mês. Filho da senhora Ōtani, engenheiro, carro próprio.” Aoi respirou fundo. “E eu falei ‘mãe, eu tô namorando’. Saiu inteiro, na primeira. Eu nunca menti tão bem na vida.”

“Pra ela parar.”

“É essa a versão que eu conto.”

“E a outra?”

Aoi ficou olhando o teto escuro por um tempo comprido.

“É que eu sou a filha que não dá trabalho”, ela disse. “A Mei liga chorando e a casa inteira para. Eu ligo e falam ‘ah, a Aoi sempre se vira’. Eu me viro mesmo, esse é o problema. Eu me virei tanto que virei paisagem.”

O silêncio dele não era um silêncio de quem espera a vez de falar.

“Eu não menti pra ela parar de me arrumar encontro”, disse Aoi, e a voz saiu menor do que ela queria. “Eu menti porque eu queria, um domingo na vida, que alguém da minha família achasse que eu tava bem. Que tinha alguém tomando conta de mim. Nem que fosse mentira.”

O grilo parou de novo.

“Isso é a coisa mais triste que eu já falei em voz alta”, ela disse. “E eu falei pra um cara que eu conheço há oito dias.”

“Nove.”

“Ah, cala a boca.”

Ele riu. Foi baixo, e foi curto, e Aoi ouviu porque estava a um metro e meio de distância no escuro.

“Aoi.”

“Oi.”

“Sua mãe ficou com os olhos molhados no jantar quando seu pai falou da bicicleta.” Uma pausa. “Não era pelo seu pai.”

Aoi não respondeu.

Ela ficou muito, muito quieta, e depois virou de lado, de costas pra ele, e ficou assim até o grilo parar de vez.


De manhã ela acordou com cheiro de arroz e com o barulho da mãe fingindo que não estava fazendo barulho.

Amassou o futon. Dobrou os cobertores de volta na pilha. Conferiu o quarto duas vezes com olho de diretora de arte.

Na cozinha, o Haruto já estava sentado à mesa com uma tigela na frente, e o pai dela estava do lado dele com o jornal, e nenhum dos dois falava nada, e os dois pareciam absolutamente confortáveis.

“Bom dia”, disse Aoi.

“Senta, filha, que esfria.”

Ela sentou. Comeu quatro garfadas. Estava tudo bem.

Foi na quinta garfada que a mãe, de costas, mexendo a panela, perguntou com a voz mais leve do mundo:

“E vocês, quando é?”

Aoi parou de mastigar.

“Quando é o quê, mãe?”

“O de vocês.” A mãe se virou, com a concha na mão e um sorriso inteiro no rosto. “Eu falei com a dona Yamada do santuário. Ela disse que em abril tem data.”

Fim do capítulo 5