Capítulo 4: Três horas até Osaka

O trem saiu de Tóquio às oito e doze.
Aoi tinha planejado usar as três horas pra revisar os post-its cor-de-rosa. Abriu o caderno no colo, leu a primeira pergunta e não leu a segunda.
Do lado dela, Haruto olhava pela janela.
“Você não tá nervoso.”
“Tô.”
“Não parece.”
“Nunca parece”, ele disse. “É o meu problema.”
Ela riu antes de decidir se ia rir.
Ficaram um tempo sem falar. Lá fora, os prédios foram ficando mais baixos e mais espaçados, e depois virou arrozal, e o céu de outubro ficou maior do que céu de Tóquio tem permissão de ser.
“Kiryū.”
“Oi.”
“Se em algum momento ficar demais, você levanta e sai. Vai fumar, vai ao banheiro, vai olhar a bicicleta do meu pai no quintal.” Ela falava pra frente, pro encosto do banco da frente. “Ninguém vai achar ruim. A minha família cansa gente que nasceu dentro dela.”
“Tá.”
“E não tenta ser perfeito. Noivo perfeito é suspeito.”
“Tá.” Uma pausa. “Aoi.”
Era a primeira vez que ele usava o nome dela.
“Oi.”
“A mesma coisa vale pra você.”
Ela ficou olhando o encosto da frente por mais um tempo, sem conseguir explicar direito por que aquilo apertou.
A casa não tinha mudado nada.
O portão continuava emperrando no mesmo ponto. O corredor de madeira continuava rangendo no terceiro tabuado. Continuava tendo uma bicicleta velha encostada na parede do quintal, que ninguém usava havia uns dez anos e que o pai dela consertava todo outono mesmo assim.
A mãe abriu a porta com o avental ainda amarrado.
“Aoi.” E aí os olhos passaram pra cima, e pra cima, e pararam. “Ah.”
“Mãe, esse é o Haruto.”
“Muito prazer, senhora.” Ele fez uma reverência que durou meio segundo a mais do que o normal, do jeito de quem estudou quanto tempo devia durar. “Desculpa vir de mãos tão vazias, eu trouxe uma coisa mas é pouco.”
Ele entregou a caixa.
A mãe abriu ali mesmo, na porta, porque é o que a mãe dela faz.
Eram os doces de castanha da loja perto da estação de Nakameguro. Não os caros. Os que a Aoi levava todo ano e que a mãe sempre dizia que eram os únicos que o pai comia.
Aoi virou a cabeça devagar.
Ela não tinha falado disso. Não estava em nenhum post-it.
“Ah”, disse a mãe, e a voz mudou de andar. “Ah, entra, entra, entra.”
O jantar foi na sala de tatame, com a mesa baixa aberta no máximo e uma cadeira de plástico encaixada na ponta pra caber todo mundo.
A Mei chegou primeiro, gritando do portão. O Sōta veio atrás carregando duas sacolas, pedindo desculpa pelas sacolas.
O pai apareceu do quintal com as mãos ainda molhadas de lavar, olhou pro Haruto, fez que sim com a cabeça e sentou.
E a vovó Tsuru já estava sentada. Ela sempre já está sentada.
“Você é mais alto pessoalmente”, disse a velha.
“É o que dizem.”
“Senta aqui.”
“Vovó, ele senta do meu lado”, disse Aoi.
“Senta aqui”, repetiu Tsuru, batendo no tatame à direita dela, e foi ali que Haruto sentou, porque não existe outra coisa a fazer.
As perguntas começaram na sopa e não pararam mais.
Onde ele trabalhava. Havia quanto tempo. Se o trabalho era estável. Se os pais dele eram vivos (eram, moravam em Nagano). Quantos irmãos (um mais velho). Se ele sabia cozinhar (sabia três coisas bem).
Ele respondia tudo curto, sem enfeite, e a família foi gostando exatamente por isso.
“E vocês se conheceram no elevador”, disse a mãe pela terceira vez, encantada.
“No elevador.”
“E ele demorou seis meses pra falar com você.”
“Sete”, corrigiu Haruto.
Aoi quase engasgou. Estava escrito seis no post-it amarelo.
“Sete?” A Mei se inclinou pra frente, com aquele sorriso de quem farejou algo. “Que precisão.”
“Eu contei”, disse ele.
A mesa inteira riu. O Sōta riu mais alto do que todo mundo e depois pediu desculpa por ter rido alto.
E a Aoi ficou ali no meio, com a tigela na mão, rindo junto e pensando, com uma clareza desconfortável, que aquela era a mesa mais leve em que ela tinha sentado em muitos anos, e que era tudo falso.
O pai falou uma vez durante o jantar inteiro.
Foi quando o Haruto perguntou, do nada, se a bicicleta do quintal era de corrida antiga.
“É de mil novecentos e oitenta e dois”, disse o pai.
E depois disso os dois ficaram vinte minutos falando de correia e de graxa, com o resto da mesa girando em volta como se nada excepcional estivesse acontecendo, e só a Aoi entendeu o tamanho do que estava acontecendo.
Ela olhou pra mãe. A mãe olhou pra ela e sorriu com os olhos molhados, e Aoi teve que olhar pro próprio prato.
A vovó Tsuru não fez nenhuma pergunta durante o jantar inteiro.
Comeu. Observou. Serviu-se de mais arroz duas vezes.
Já perto do fim, quando a Mei estava explicando pela quarta vez como funcionaria a ordem da cerimônia, a velha esticou o braço e pegou a mão esquerda da Aoi, do jeito mais casual do mundo, como quem ajeita a toalha.
Olhou.
Soltou.
Depois olhou pra mão direita da neta, onde o anel de dez lugares brilhava demais pro que era.
“Bonito”, disse Tsuru.
“É provisório”, respondeu Aoi, rápido, exatamente como tinha ensaiado. “O de verdade vem depois do casamento da Mei.”
“Hm.”
E a vovó voltou pro arroz, e não falou mais nada, e foi só muito depois que Aoi entendeu que aquele hm tinha sido o fim de alguma coisa.
A Mei encurralou a irmã na pia, na hora da louça.
“Ele é ótimo.”
“Ele é.”
“Sério, Aoi, ele é ótimo.” A Mei passava o pano num copo já seco. “O papai falou com ele. O papai não fala com o Sōta desde abril.”
“Ele é quieto.”
“Ele é atento.” A irmã pousou o copo. “Tem diferença.”
Aoi continuou lavando.
“Você tá feliz?”
A pergunta veio sem aviso e sem malícia nenhuma, que é o jeito mais perigoso de uma pergunta vir.
“Tô”, disse Aoi.
E não era mentira, e foi por isso que assustou.
Mei ficou olhando pra ela mais um segundo do que o normal. Depois pegou outro copo e começou a secar um copo que também já estava seco.
“Que bom”, disse.
Foi a mãe que fechou a noite, do corredor, com o avental já pendurado no braço e a voz mais leve do mundo.
“Ah, Aoi, eu arrumei o quarto de vocês.”
Aoi parou com a mão na porta do banheiro.
“O quarto.”
“O seu antigo. Tirei as caixas todas, ficou até grande.” A mãe já estava indo. “Botei o futon novo, aquele que a sua tia deu. Não é muito largo, mas vocês são jovens.”
“Mãe.”
“Boa noite, filha.”
“Mãe, espera, quantos futons você…”
Mas a porta do quarto dos pais já tinha fechado, com aquele barulhinho de madeira velha que a Aoi conhecia desde os quatro anos de idade.
No fim do corredor, parado com a mala na mão e a cara de quem acabou de fazer a mesma conta, o Haruto olhou pra ela.
“Um”, disse ele.
“Um”, confirmou Aoi.
Fim do capítulo 4
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