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Noivo por Três Semanas

Capítulo 3: Currículo de um amor falso

11 de set de 2026 · 5 min de leitura

Aoi gesticulando sentada no chão do apartamento enquanto Haruto anota num caderno, com um mural de post-its coloridos na parede e a cidade à noite pela janela

“A gente se conheceu no elevador”, disse Aoi.

“Isso é verdade.”

“Por isso mesmo. Mentira boa é feita de peça verdadeira.” Ela colou um post-it amarelo na parede. “Quanto menos a gente inventar, menos a gente esquece.”

O apartamento dela tinha virado um mural. Post-its em três cores na parede do lado da janela, a mesa baixa coberta de folhas, duas canecas de chá que ninguém tinha bebido.

Era terça, quase dez da noite. O quinto dia.

“Cor amarela é fato”, explicou Aoi, apontando. “Verde é opinião, tipo o que você acha da minha irmã. Rosa é perigo.”

“Perigo.”

“Pergunta que pode derrubar a gente. Tipo ‘quando vocês pretendem casar’.”

Haruto olhou pro bloco rosa, que era o mais cheio dos três.

“Tem dezessete.”

“Eu sei.”


A parte fácil foi a história. A parte fácil é sempre a história.

Eles se conheceram no elevador, dois anos atrás. Ele deixou cair um crachá, ela pegou. Começaram a se cruzar na cafeteria. Ele demorou seis meses pra puxar assunto, o que era tão plausível que Aoi teve vontade de rir.

Começaram a namorar em março do ano passado. Ele pediu em julho, num restaurante que Aoi escolheu na hora, sem anel, porque estavam guardando dinheiro.

“Por que sem anel?”

“Porque eu comprei um de dez lugares numa loja de conveniência e a vovó vai olhar.” Aoi mostrou a mão. A pedra era vidro e pegava a luz do teto de um jeito otimista demais. “Se alguém perguntar, esse é provisório. O de verdade vem depois do casamento da Mei.”

“Isso é bom.”

“É desesperado.”

“É verdadeiro o suficiente pra ser dito sem pausa”, disse Haruto. “Pausa é o que entrega.”

Aoi anotou isso num post-it verde, porque era bom demais pra perder.


A parte difícil foi ela.

“Comida favorita.”

“Tofu frio.”

“Errado.”

“Você come tofu frio todo dia.”

“Eu como tofu frio porque é o que dá tempo.” Aoi apontou o lápis pra ele. “Favorita é karaage da barraca perto de casa. Se a minha mãe perguntar e você falar tofu, ela vai achar que você acha que eu como tofu, e aí ela vai achar que você não me conhece, e aí acabou.”

“Karaage”, repetiu ele, anotando.

“O que eu odeio.”

“Beringela.”

Ela parou.

“Como é que você sabe disso?”

“Confraternização de junho.” Ele não levantou os olhos do caderno. “Você empurrou as beringelas pro lado do prato do Arai enquanto ele falava.”

“Isso foi há quatro meses.”

“Foi.”

Aoi olhou pra ele por um tempo comprido. Ele continuou escrevendo, do jeito mais tranquilo do mundo.

Ele repara nas coisas, ela pensou. Só isso. Gente quieta repara.

Ela escolheu acreditar nisso porque era a explicação confortável, e porque já eram quase dez e meia e ainda faltava a parte dele.


A parte dele não estava indo bem.

Ela tinha montado uma sala de reunião falsa na sala de casa: a mesa baixa virou a mesa comprida, quatro almofadas viraram a diretoria, e o notebook dela, apoiado numa caixa de papelão, virou o telão.

Haruto de pé no meio do carpete parecia dois metros de constrangimento.

“Slide um”, disse Aoi.

Ele começou.

A voz saiu firme, estranhamente firme, e por uns quarenta segundos foi ótimo. Ele explicou o problema. Citou as quatro horas de queda em agosto. Disse o número de arquivos.

E aí, no slide três, parou.

Não foi gaguejar. Foi outra coisa. A frase simplesmente não chegou, como se o caminho até ela tivesse sido apagado do mapa.

Aoi esperou.

Cinco segundos. Oito.

“Kiryū.”

“Desculpa.”

“Não pede desculpa.”

“Desculpa.” Ele fechou os olhos um instante. “Pode voltar pro um?”

Eles voltaram pro um. Onze vezes, ao longo daquela semana. Na décima primeira, ele passou do slide três e travou no quatro.


Na quinta-feira, ela mudou de método.

“Esquece o slide.”

“É a apresentação inteira.”

“Senta.”

Ele sentou no chão, de costas pra parede, do jeito de quem está aliviado por sentar.

Aoi sentou de frente, com as costas na base do sofá, e ficou um tempo escolhendo as palavras. Do lado dela, na varanda, o vaso de cosmos balançava com o vento que entrava pela fresta.

“Quando eu entrei na agência”, ela disse, “eu tinha vinte e três anos e uma voz que sumia. Toda vez que eu abria a boca numa sala com mais de seis pessoas, saía metade do volume.”

“Eu não acredito nisso.”

“Pois é.” Ela puxou a franja pra trás da orelha. “Aí uma diretora me ensinou uma coisa que eu uso até hoje. Você quer?”

“Quero.”

“Você não fala pra sala.” Aoi encostou a cabeça no sofá. “Sala não escuta, sala julga. Você escolhe uma pessoa. Uma só. A que parece menos hostil, ou a que você mais respeita, tanto faz. E você conta pra aquela pessoa, do mesmo jeito que contaria no corredor. Os outros vinte ouvem de graça.”

Haruto ficou muito quieto.

“É isso?”

“É isso. Não é truque de respiração, não é postura, não é nada bonito.” Ela deu de ombros. “É só parar de tentar falar com uma parede e escolher uma pessoa.”

Ele estava olhando pra ela de um jeito que ela não soube classificar.

“Eu sei”, ele disse.

“Você sabe o quê?”

“Disso. Escolher uma pessoa.” A voz dele saiu mais baixa. “Você me falou isso.”

O ventilador do notebook acelerou e desacelerou. Na rua, um carro passou.

“Eu nunca te falei isso”, disse Aoi.

“Falou.”

“Kiryū.” Ela se endireitou. “A gente nunca conversou antes da sexta passada. Nunca. Eu não sabia nem o seu nome, eu li no seu crachá.”

Haruto abriu a boca.

E aí olhou pro caderno no colo, e alguma coisa nele fechou, do mesmo jeito que tinha fechado no café quando ela perguntou sobre os dois anos.

“Deve ser outra pessoa”, ele disse.

“Deve.”

Nenhum dos dois acreditou.


Ele foi embora quase meia-noite. Ela ficou olhando a parede de post-its por um tempo depois que a porta fechou.

Dezessete perguntas de perigo. Uma história inteira montada peça por peça. Um anel de dez lugares na mão errada, que ela ainda não tinha percebido que estava na mão errada.

Aoi pegou o celular e digitou uma mensagem pra Yuzuki.

ele sabe que eu odeio beringela
ele sabe do truque da uma pessoa
yuzu eu acho que esse homem me conhece

A resposta veio em quarenta segundos.

ou ele é obcecado
ou você esqueceu de alguma coisa
e amiga, você esquece de tudo

Aoi olhou pra tela um tempo.

Depois apagou o rascunho da resposta, apagou a luz e foi dormir sem nenhuma das duas explicações servindo direito.

No sábado de manhã eles pegariam o trem pra Osaka.

Fim do capítulo 3