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Neko Novel
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Noivo por Três Semanas

Capítulo 2: As regras no caderno

09 de set de 2026 · 6 min de leitura

Aoi e Haruto numa mesa de café com um caderno preto aberto entre os dois, ela escrevendo a lápis e ele observando

“Uma apresentação”, repetiu Aoi.

“Quarenta minutos.” Haruto girou a xícara meio grau no pires. “Quarta-feira da semana que vem. Diretoria inteira.”

“E você quer que eu faça o quê? Monte os slides?”

“Não.” Ele pensou. “Os slides estão prontos há três semanas.”

“Então?”

“Eu quero que você me ensine a falar.”

O café ficou parado no ar, no meio do caminho até a boca dela.

Era sábado de manhã e a cafeteria embaixo do escritório estava quase vazia. Lá fora, uma fila de ginkgos começava a virar amarela nas pontas, daquele jeito que sempre pega Tóquio de surpresa mesmo acontecendo todo ano.

“Kiryū, eu sou diretora de arte. Eu não sou fonoaudióloga.”

“Eu vi você apresentar pro Shirogane.” Ele disse isso sem levantar os olhos. “Três vezes.”

“Isso é um pouco assustador.”

“A 9C tem parede de vidro. E eu subo pra consertar o projetor dela toda semana.”

“Ah.” Aoi pousou a xícara. “Justo.”

Ele abriu o caderno preto, achou uma página limpa e virou pra ela, junto com o lápis.

“Você escreve melhor do que eu.”

“Eu nem sei o que a gente vai escrever.”

“As regras”, disse Haruto. “Se a gente não escrever, uma hora um dos dois vai achar que o outro combinou coisa diferente.”

E aquilo, Aoi teve que admitir, era a coisa mais sensata que alguém tinha dito pra ela em uma semana inteira.


Ela escreveu REGRAS no topo da página e sublinhou duas vezes, porque ela é assim.

“Um”, disse. “Prazo. Começa hoje, acaba no dia vinte e seis, domingo, quando a gente voltar do casamento. Depois disso a gente volta a ser duas pessoas que se cumprimentam no elevador.”

“Aceito.”

“Dois. Nada de contato físico sem avisar antes. Se a minha família esperar que a gente dê a mão, eu falo ‘vem cá’ e você sabe que é encenação.”

Haruto assentiu devagar.

“E se for você que precisar?”

“Eu falo a mesma coisa.”

“Tá.”

“Três.” Ela parou o lápis. “Você não conta pra ninguém da agência. Nem pro seu time. A Yuzuki já sabe porque foi ela que me deu a ideia, e eu vou cobrar isso dela pelo resto da vida.”

“Eu não conto nada pra ninguém”, disse Haruto, e não soou como promessa. Soou como descrição.

“Quatro. Se em algum momento você quiser sair, você sai. Sem explicação, sem aviso prévio, sem culpa.” Aoi encarou ele. “Eu tô te pedindo um favor absurdo. Você não me deve nada.”

Ele demorou mais nessa.

“E se for você que quiser sair?”

“Aí eu conto a verdade pra todo mundo e aguento o que vier.”

“Tá.”

Ela escreveu. O lápis fazia um barulhinho bom no papel.

“Cinco”, disse Aoi, e aí hesitou, porque a cinco era a única que constrangia. “Ninguém se apaixona.”

Haruto não riu. Foi isso que ela reparou depois, quando revirou a conversa na cabeça à noite: qualquer outra pessoa teria rido, ou feito uma piada, ou dito imagina.

“Tá”, ele disse só.

“Você escreve essa.”

“Por quê?”

“Porque eu escrevi as quatro primeiras e essa é a única que é pra nós dois.”

Ele pegou o lápis. A letra dele era pequena, reta e inclinada pra frente, letra de quem anota rápido sem nunca rasurar.

Aoi olhou a página cheia e sentiu uma coisa esquisita, tipo alívio e vertigem no mesmo lugar do peito.

“Beleza”, disse. “Agora sua parte. O que acontece se a apresentação der errado?”


Ele contou de um jeito plano, do jeito que se lê um relatório.

O time de TI interno da Kotoba tinha três pessoas. Ele, o Ogawa, que tinha dois filhos pequenos, e a Nozaki, que tinha entrado havia sete meses e ainda estava aprendendo.

A agência guardava dezoito anos de arquivo num sistema que ninguém mais dava suporte. Toda vez que ele pedia pra trocar, a resposta era que estava funcionando.

Em agosto, o sistema caiu por quatro horas no meio de uma entrega.

“Aí eles finalmente escutaram”, disse Haruto.

“E isso é bom.”

“Escutaram a metade.” Ele alinhou o guardanapo com a borda da mesa. “Abriram duas propostas. A minha, que é trocar o sistema e manter o time. E a de uma empresa de fora, que é terceirizar tudo. Sai mais barato no primeiro ano.”

“E no segundo?”

“Sai muito mais caro. Está no slide nove.”

“Então você mostra o slide nove.”

“Eu preciso chegar no slide nove.”

Ele disse isso olhando pra xícara, e Aoi entendeu que a conversa tinha acabado de mudar de assunto sem mudar de assunto.

“Kiryū.”

“Eu não apresento há dois anos”, ele disse. “O Ogawa vem fazendo por mim. Mas dessa vez a diretoria pediu o responsável técnico, e o responsável técnico sou eu.”

“O que aconteceu há dois anos?”

A mão dele parou.

Por um segundo Aoi teve certeza de que ele ia contar. Deu pra ver a coisa inteira passando atrás dos olhos dele, a decisão sendo tomada e destomada.

“Nada que mude o combinado”, ele disse. “Você me ensina a falar. Eu vou a Osaka.”

Ela deixou passar. Foi a última vez que ela deixaria.


O celular dela começou a tocar às onze e quarenta.

Aoi olhou a tela e o corpo inteiro dela reagiu antes do cérebro, uma descarga fria da nuca até os dedos.

“É a minha avó.”

“Atende.”

“É vídeo.”

“Atende”, repetiu Haruto, e já estava tirando o casaco do encosto pra sentar do lado dela em vez de na frente.

Ela atendeu.

O rosto da vovó Tsuru preencheu a tela inteira, como sempre, porque ela segurava o celular a quinze centímetros do nariz.

“Aoi.”

“Oi, vovó.”

“Você está num café.”

“Tô.”

“Com quem?”

E Aoi, que ganhava a vida pensando rápido, travou.

Foi Haruto que se inclinou um pouco, o suficiente pra entrar no quadro, e disse, com uma naturalidade que ela não fazia ideia de onde tinha vindo:

“Bom dia, senhora. Desculpa aparecer assim, sem ser apresentado direito.”

Tsuru afastou o celular uns bons trinta centímetros. Pela primeira vez na vida, Aoi viu a avó enquadrar alguma coisa direito.

“Ah”, disse a velha. “Então você existe.”

“Existo.”

“Hm.” Os olhos apertaram. “Você é muito alto.”

“Me falam isso.”

“Come bem?”

“Como.”

“Bebe?”

“Uma cerveja de vez em quando.”

“Ronca?”

“Vovó”, disse Aoi.

“Não sei”, respondeu Haruto, sério. “Nunca me ouvi.”

E a vovó Tsuru, que Aoi tinha visto rir exatamente quatro vezes em vinte e sete anos, riu.

O resto da ligação durou seis minutos. Ele respondeu tudo. Onde trabalhava, o que fazia lá, se sabia cozinhar, se ia ao casamento, se tinha comprado terno.

E quando a avó perguntou, do nada, o que ele mais gostava na neta dela, Haruto não hesitou nem meio segundo.

“Ela resolve as coisas dos outros antes de resolver as dela”, ele disse. “Isso é um defeito enorme. Mas é bonito de ver.”

Aoi virou a cabeça pra ele tão rápido que quase derrubou a xícara.

A vovó Tsuru ficou quieta um tempo.

“Hm”, disse afinal. “Traz ele no sábado.”

E desligou.


O celular ficou aceso na mesa entre os dois, com a tela voltando devagar pro fundo do relógio.

“Isso foi”, começou Aoi, e não terminou.

“Foi ruim?”

“Foi bom demais.” Ela olhou pra ele. “Kiryū, você inventou tudo aquilo em dois segundos.”

Haruto pegou a xícara vazia, reparou que estava vazia e pousou de novo.

“Eu não inventei nada”, ele disse.

Fim do capítulo 2