Capítulo 1: O noivo que nunca existiu

A mentira tinha durado um ano, três meses e onze dias, e ia morrer numa sexta-feira às quatro da tarde.
Aoi soube pelo jeito como o celular vibrou. Três toques curtos, o padrão da irmã. Mei nunca ligava no meio do expediente.
“Oi”, atendeu, já andando pro corredor.
“Senta.”
“Eu tô em pé.”
“Então senta.”
Aoi sentou no primeiro lugar que encontrou, que era o parapeito frio ao lado da máquina de café quebrada.
“O Sōta pediu”, disse Mei. “Ontem. No parque. Ele tremia tanto que derrubou a caixinha.”
Alguma coisa quente subiu pelo peito da Aoi, e por dois segundos inteiros ela foi só uma irmã mais velha ouvindo a melhor notícia do ano.
“Mei.”
“Eu sei.”
“Mei.”
“Eu sei, eu sei, eu chorei feio.” A voz da irmã falhou e voltou. “E tem mais. A gente marcou.”
“Marcou o quê?”
“O casamento.”
“Pra quando?”
“Dia vinte e cinco.”
Aoi olhou pro calendário na parede da copa.
“Deste mês?”
“O santuário teve desistência. Ou a gente pegava agora, ou esperava até abril.” Mei falava rápido demais. “Três semanas. Eu sei que é loucura. A mamãe quase desmaiou.”
“Três semanas.”
“Aoi.”
“Oi.”
“A mamãe quer que você leve ele.”
O corredor continuou exatamente igual. A máquina de café continuou quebrada.
“Leve quem”, disse Aoi, e a própria voz saiu com uma calma que ela não reconheceu.
“O Haru.” Mei riu. “Seu noivo, sua doida. Aquele que ninguém nunca viu. A vovó falou que se ele não aparecer dessa vez ela vai considerar que você inventou.”
Ela tinha inventado.
Foi num domingo de setembro do ano anterior, na terceira ligação seguida em que a mãe explicou, com muita educação, que o filho da senhora Ōtani era engenheiro e tinha um carro próprio.
Aoi estava no chão da cozinha montando um móvel que veio com peças a menos. Tinha trinta e uma horas de trabalho acumuladas na semana e uma parafusadeira sem bateria.
“Mãe.”
“Ele até já perguntou de você.”
“Mãe, eu tô namorando.”
Saiu assim. Redondo, inteiro, sem ensaio.
O silêncio do outro lado foi tão fundo que Aoi ouviu o relógio da sala de Osaka.
“Você está o quê?”
E aí já era tarde, porque a mãe estava feliz. Feliz de um jeito que Aoi não ouvia havia anos.
Então ela deu um nome. O primeiro que apareceu, tirado do crachá de alguém que tinha entrado no elevador com ela naquela semana e olhado pro chão o caminho inteiro.
Haru.
Ninguém nunca vai pedir pra conhecer, ela pensou. É Osaka. Eu vou uma vez por ano.
Durante um ano, três meses e onze dias, ela esteve certa. A mãe parou com os omiai. Os domingos ficaram leves. Nas ligações, Aoi contava que o Haru tinha feito curry no sábado, e a mãe ria e mandava lembranças pra um homem que não existia.
Era a mentira mais bem-sucedida da vida dela, e o problema das mentiras bem-sucedidas é que ninguém as interrompe a tempo.
“Você tem três semanas”, disse Yuzuki, empurrando um copo de café na direção dela. “Isso é praticamente uma campanha inteira. A gente já entregou coisa pior em menos tempo.”
“Eu vou contar a verdade.”
“Ótimo.” Yuzuki se sentou na beirada da mesa. “Conta agora, então. Liga.”
Aoi olhou pro celular.
“Depois do casamento.”
“Ah, claro.”
“É a festa da Mei, Yuzu. Se eu contar agora, a mamãe passa três semanas chorando e todo mundo vai olhar pra mim no santuário em vez de olhar pra noiva.” Aoi esfregou o rosto. “Eu estrago o casamento da minha irmã pra ficar com a consciência limpa. Que ótimo.”
“Então você aluga um noivo.”
“Isso existe?”
“Existe. Custa uma fortuna e eles usam foto de perfil com o rosto borrado.” Yuzuki deu de ombros. “Ou você convida alguém que já conhece.”
“Quem?”
“Qualquer homem adulto que consiga ficar três dias num sobrado em Osaka sem surtar.”
Aoi pensou na lista de homens adultos que ela conhecia. Era uma lista curta, e metade dela era o Kenji Arai, que num jantar de família iria explicar pro pai dela o conceito de posicionamento de marca.
“Eu vou pensar.”
“Pensa rápido”, disse Yuzuki. “Você tem cara de quem já decidiu e tá negociando o preço.”
A escada de incêndio era o único lugar do nono andar onde ninguém procurava ninguém.
Aoi desceu meio lance, sentou no degrau frio e ficou olhando o corrimão verde descascado. Lá embaixo, uma lâmpada piscava com aquele zumbido de coisa que devia ter sido trocada em outro ano.
Ela ia contar a verdade. Ela ia ligar pra mãe e contar a verdade.
Levantou o celular. Abaixou o celular.
Foi quando a porta do andar de baixo abriu.
O homem que subiu tinha um caderninho preto na mão e o tipo de altura que faz a pessoa andar meio curvada, como quem pede desculpa pelo espaço que ocupa. Óculos finos. Suéter azul-marinho. Parou dois degraus abaixo dela ao perceber que o lugar estava ocupado.
“Desculpa”, ele disse.
“Você não fez nada.”
“Eu vim porque aqui é vazio.”
“É.” Aoi ergueu o copo de café vazio, tipo um brinde. “Era.”
Ele hesitou. Depois sentou no degrau de baixo, com uma distância educada, e abriu o caderno no colo. Escreveu duas linhas. Parou. Riscou uma.
Aoi olhou pro crachá pendurado no bolso dele.
KIRYŪ HARUTO. TI.
Ela olhou de novo.
Haru.
A parte racional do cérebro dela avisou, com toda a clareza, que o que estava prestes a acontecer era uma ideia horrível.
“Kiryū.”
Ele levantou a cabeça.
“A gente já andou junto de elevador”, disse Aoi. “Uns dois anos atrás, acho. Você olhou pro chão o caminho inteiro.”
Alguma coisa passou pelo rosto dele, rápida demais pra ela ler.
“Pode ser.”
“Você tem alguma coisa marcada pro dia vinte e cinco?”
“Do mês que vem?”
“Deste.”
Ele pensou de verdade antes de responder, o que Aoi achou estranho e, no segundo seguinte, achou raro.
“Não.”
“Você já foi a Osaka?”
“Duas vezes.”
“Gostou?”
“Da comida.”
Aoi respirou fundo. Pousou o copo no degrau. Virou o corpo pra ficar de frente pra ele, porque se ela ia fazer aquilo, ia fazer olhando.
“Kiryū, eu vou falar uma coisa muito esquisita, e eu preciso que você me deixe terminar antes de levantar e ir embora.”
Ele fechou o caderno devagar.
“Tá.”
“Há um ano eu contei pra minha mãe que eu tinha um noivo. Não tenho. Nunca tive. Eu inventei pra ela parar de me arrumar encontro com filho de amiga dela.”
Aoi falava rápido, de olhos abertos, sem piscar.
“Minha irmã vai casar em três semanas, em Osaka, e a família inteira quer conhecer esse homem. Eu preciso de alguém que vá comigo, que sente naquela mesa, que aguente três dias de pergunta, e que depois suma da minha vida pra sempre.”
A lâmpada piscou duas vezes.
“E o nome que eu dei pra ele”, ela terminou, “foi Haru.”
O silêncio durou tanto que Aoi teve tempo de sentir o rosto esquentar do queixo pra cima.
“Esquece”, disse ela, já procurando o copo. “Esquece, isso foi insano, eu tô tendo um dia muito ruim e eu…”
“Eu aceito.”
Aoi parou com a mão no ar.
“O quê?”
Haruto tirou os óculos, limpou a lente na barra do suéter e colocou de volta, e foi só aí que ele levantou os olhos e olhou direto pra ela, sem nenhum sinal de quem olha pro chão em elevador.
“Eu aceito”, ele repetiu. “Mas eu tenho uma condição.”
Fim do capítulo 1
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