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Neko Novel
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Noivo por Três Semanas

Capítulo 6: A apresentação

18 de set de 2026 · 5 min de leitura

Haruto de camisa branca diante do telão da sala de reunião envidraçada, com a diretoria em volta da mesa, e Aoi ao fundo perto da porta, a ponto de intervir

A frase que quase acabou com tudo foi dita na segunda-feira, na copa, por alguém que nem sabia que estava sendo ouvido.

“O cara do oitavo vai apresentar?” Kenji Arai riu curto, mexendo o café. “Coragem. Eu estava naquela sala do Shirogane.”

Aoi, parada na porta com duas canecas na mão, sentiu o estômago afundar.

Ela não viu o Haruto atrás dela. Viu depois, quando ele já estava descendo a escada, e ela desceu atrás, e ele disse que estava tudo bem, e o rosto dele estava branco.

“Kiryū.”

“Eu vou entregar pro Ogawa.”

“Não.”

“É o mais seguro pro time.”

“É o mais seguro pra você”, disse Aoi. “Não é a mesma coisa.”

Ele parou no meio do lance. A lâmpada piscou.

“Se eu travar de novo na frente da diretoria, não é só eu que cai. São três pessoas.”

“E se o Ogawa apresentar, você nunca mais vai tentar.” Ela desceu um degrau. “Eu não tô nem falando de coragem, Kiryū. Eu tô falando de conta. Você tem trinta e nove anos pela frente nessa profissão.”

Ele ficou olhando pro corrimão verde por um tempo longo.

“Quarta-feira”, disse.


A sala 9C, no andar da criação, tinha parede de vidro dos dois lados.

Aoi arrumou uma desculpa pra estar lá. Levou uma pasta com um projeto que não precisava de aprovação e sentou no fundo, longe, perto da porta.

Sete diretores. O Arai na ponta. A empresa terceirizada em videochamada no telão lateral, com dois homens de terno cinza que tinham chegado quinze minutos antes.

Haruto entrou às dez em ponto, de camisa branca, sem o suéter, com o caderno preto na mão.

Ele pousou o caderno na mesa e não abriu.

“Bom dia.”

Começou.


Slide um. O problema em uma frase.

Slide dois. Dezoito anos de arquivo. Quatrocentos e sessenta mil itens.

Slide três. A queda de agosto, quatro horas, no meio da entrega da campanha de verão.

A voz dele estava firme. Não era a voz de alguém confortável, era a voz de alguém segurando uma pedra pesada com as duas mãos e andando devagar.

Aoi percebeu que estava com as unhas enterradas na palma.

Slide quatro.

E ele parou.


Foi exatamente como ele tinha descrito, e ainda assim foi pior de ver do que de ouvir.

Não teve gaguejo. Não teve pedido de desculpa. Ele simplesmente ficou de pé, com o clicker na mão, e o ar não passou.

Dois segundos. Cinco. Dez.

Alguém na mesa pigarreou. O Arai olhou pro relógio com uma delicadeza que foi pior do que se ele tivesse bufado.

Quinze segundos.

Aoi começou a se levantar.

Foi automático. Ela nem pensou. O corpo dela subiu meio palmo da cadeira e a mão dela já estava na mesa e a frase já estava montada na boca, desculpa, eu peguei a versão errada da tabela, porque era o que ela sempre fez, porque é o que ela faz, porque ela resolve.

E Haruto ergueu a mão.

Não olhou pra ela. Não olhou pra ninguém. Só levantou a mão esquerda uns dez centímetros acima da mesa, com a palma pra baixo.

Espera.

Aoi sentou.


Vinte e dois segundos.

“Desculpa”, disse Haruto.

Foi a primeira palavra em quase meio minuto e saiu rachada.

“Eu perdi a frase.” Ele olhou pro próprio slide, depois pra mesa. “Eu vou continuar de qualquer jeito, porque eu não sei se eu consigo de novo se eu parar agora.”

Silêncio.

“Slide quatro. Custo atual de manutenção.”

E ele continuou.

Foi ruim. Foi ruim de doer. Ele leu números do slide em vez de explicar. Trocou a ordem de duas partes e teve que voltar. Bebeu água três vezes.

No slide seis a mão dele tremia tanto que ele pousou o clicker na mesa e passou os slides andando até o notebook, uma vez pra cada, e nem tentou fingir que aquilo era normal.

E chegou no nove.

“Slide nove”, ele disse. “Custo da terceirização no segundo ano.”

A sala mudou.

Aoi viu acontecer. Viu o diretor financeiro parar de olhar pro celular. Viu os dois homens de cinza na tela trocarem um olhar rápido.

Haruto falou por quatro minutos sem travar nenhuma vez, porque aquela parte ele não tinha decorado. Aquela parte ele sabia.


A proposta foi aprovada com cortes.

Cortaram trinta por cento do orçamento e empurraram o cronograma pra abril. O time continuava. As três pessoas continuavam.

Quando a sala esvaziou, Haruto ficou sentado na cadeira mais próxima da parede, com os dois braços em cima da mesa e a cabeça baixa, respirando.

Aoi fechou a porta de vidro.

“Você conseguiu.”

“Eu fui péssimo.”

“Você foi péssimo”, ela concordou, e sentou na cadeira do lado. “E conseguiu.”

Ele riu, uma única vez, sem levantar a cabeça.


Eles foram pra escada de incêndio porque não tinha outro lugar.

Sentaram no mesmo degrau de duas semanas atrás, o que não passou despercebido pra nenhum dos dois.

“Por que você me impediu?”, perguntou Aoi.

“Porque você ia fazer de novo.”

“Fazer o quê de novo?”

Haruto não respondeu logo.

Ele tirou o caderno preto do bolso de trás. Abriu na contracapa, onde tinha um bolso de papel colado, e tirou dali uma folha dobrada em quatro.

Estava amarelada nas dobras, do jeito que papel fica quando é dobrado e desdobrado por muito tempo.

Ele entregou.

Aoi abriu.

Era a impressão de um slide. Uma tabela, com uma coluna de números e um cabeçalho em fonte pequena. No alto, o carimbo da data: 17 de outubro, dois anos atrás.

E na margem direita, a lápis, uma anotação em letra apressada e inclinada.

a parte boa é a sua. usa ela.

Aoi olhou pra letra.

Era dela.

“Kiryū.”

“Você entrou na sala atrasada”, disse Haruto. “Você era júnior, tinha entrado havia sete meses, e não era nem o seu projeto. Você estava levando uma pasta pro andar de cima.”

O peito dela ficou muito apertado.

“Eu estava de pé há um minuto e quarenta segundos e o cliente já tinha começado a olhar pro lado.” A voz dele continuava plana, e agora ela entendia que aquela voz plana era como ele carregava coisa pesada. “E você largou a pasta na mesa e falou ‘desculpa, gente, o erro do quatro é meu, eu montei essa tabela ontem de madrugada’.”

“Não era meu.”

“Não era seu.” Ele assentiu. “Eu nunca te vi antes daquele dia.”

Aoi olhou pra folha na mão. Os dedos dela estavam tremendo um pouco.

“E aí você virou a reunião”, ele continuou. “Você falou vinte minutos, com o meu material, que você tinha visto pela primeira vez cinco minutos antes. Eles aprovaram. E quando acabou, você me deu isso e foi embora.”

“Eu não lembro.”

“Eu sei.”

“Kiryū, eu não lembro de nada disso.”

“Eu sei”, repetiu Haruto. “Eu esperei dois anos pra ver se você ia lembrar.”

Ele olhou pra frente, pro corrimão verde descascado, e disse do jeito mais simples do mundo:

“Você salvou a minha carreira numa terça-feira e foi almoçar.”

Fim do capítulo 6