Capítulo 2: Precisa-se de aventureiros

“Então vocês não têm dinheiro”, disse Elina.
“Não”, eu disse.
“Nem membros.”
“Não.”
“Nem roupa seca.”
“Isso a gente está resolvendo por evaporação.”
Kohaku, do meu lado, torcia uma das caudas em cima do chão da Guilda. Um aventureiro com cara de urso escorregou na poça e xingou em três idiomas.
Elina fechou os olhos por um segundo, do jeito que eu fechava no terceiro cliente bêbado da noite.
Eu conhecia aquele olhar. Era o olhar de alguém que queria que a gente fosse embora, e que também queria que o turno acabasse, e que, se eu oferecesse um jeito de as duas coisas acontecerem, ia aceitar.
“Elina”, eu disse. “Proposta.”
“Você registra a gente hoje, fiado. Em troca, a gente paga as duas moedas de prata mais um décimo do que ganhar na primeira missão. E a gente sai do seu balcão agora e não volta até ter os quatro nomes.”
Elina abriu os olhos.
“Um décimo?”
“Um décimo.”
Ela pensou. Eu vi a conta passando atrás da testa dela: dois estranhos molhados, uma chance mínima de sucesso, e um balcão livre em trinta segundos.
“Aceito”, ela disse.
E o ar entre nós dois acendeu.
BARGANHA CONCLUÍDA.
Partes: Takumi Arata e Elina (Guilda de Rosengard).
Termos: registro imediato, fiado. Pagamento de 2 moedas de prata + 10% da primeira missão. Saída imediata do balcão até haver 4 membros.
Quem descumprir perde exatamente o que prometeu.
Observação: parabéns pela primeira barganha. Foi meio sem graça.
Uma janela dourada, flutuando no meio da Guilda, com moldura cheia de arabescos e um selo brilhante no canto.
Elina olhou pra janela. Olhou pra mim.
A Kohaku olhou pra última linha.
“Eu não escrevi isso”, ela disse, rápido demais.
A gente dormiu no estábulo da Guilda naquela noite, porque o estábulo era de graça e a Kohaku se recusou a dormir no chão da praça “como uma plebeia”.
Eu escrevi o anúncio num pedaço de papel que a Elina me deu, com uma pena que ela também me deu, e que ia entrar na conta.
PRECISA-SE DE AVENTUREIROS.
Equipe nova, com deusa (verdadeira).
Não exigimos experiência.
Não oferecemos salário.
Testes amanhã, no pátio, ao meio-dia.
“Por que você colocou ‘verdadeira’ entre parênteses?”, perguntou a Kohaku.
“Pra ninguém achar que é propaganda enganosa.”
“E por que tá entre parênteses, como se fosse um detalhe?”
Eu fui dormir.
Ao meio-dia apareceram três pessoas.
A primeira chegou empurrando um carrinho de mão cheio de frascos, que tilintavam a cada pedra do calçamento.
Era uma anã. Um metro e quarenta, tranças ruivas grossas com argolas de latão, óculos de proteção na testa, um avental de couro chamuscado e um corpete marrom que obviamente tinha sido feito sob medida por alguém que levou o trabalho muito a sério. Tinha sardas, um dente da frente lascado e o sorriso de quem ia explodir alguma coisa.
“Dagny Emberforge”, ela disse, apertando minha mão com força de ferreiro. “Alquimista. Trinta e quatro anos. Vou logo avisando que fui expulsa da Guilda dos Alquimistas, que a acusação era falsa e que não quero falar disso.”
“Tudo bem.”
“Quer ver uma poção?”
“Quero.”
Ela pegou um frasco azul.
“Poção de Força”, anunciou. “Um gole e você levanta um boi.”
E jogou o frasco no chão.
Eu não sei por que ela jogou no chão. Ela também não soube explicar depois.
O frasco estourou e subiu uma nuvem de fumaça verde, depois rosa, depois dourada, com faísca. Todo mundo no pátio começou a soluçar ao mesmo tempo. A fonte do outro lado da praça ficou roxa. Um pombo que passava ficou do tamanho de um gato e foi embora ofendido.
“Isso não era pra acontecer”, disse Dagny, soluçando, completamente feliz. “Mas olha o pombo! Olha o tamanho do pombo!”
A segunda candidata veio a pé, e o chão tremia um pouco.
Um metro e oitenta e cinco. Armadura prateada e vermelha polida até brilhar, moldada no corpo de um jeito que deixava claro que a armadura sabia exatamente o que estava protegendo. Cabelo preto até a cintura. Dois chifres pretos pra trás. Uma cauda de escamas vermelhas. Um escudo do tamanho de uma porta.
“Eu”, disse ela, erguendo a espada pro céu, “sou Seraphine Vael’drakar, da linhagem dos Dracos Carmesins, e vim oferecer minha lâmina à causa mais nobre desta cidade!”
“É um anúncio de equipe sem salário.”
“Então é a causa mais nobre de todas!”
Eu apontei o boneco de treino no canto do pátio. Um boneco de palha, parado, amarrado num poste.
“Pode atacar ele?”
Seraphine sorriu como quem recebe um presente.
Ela correu. Gritou. Girou a espada num arco magnífico.
E errou.
Errou por meio metro. O boneco balançou com o vento.
Ela tentou de novo. Errou. De novo. Errou. Quarenta vezes. Eu contei. Em algumas ela chegou a acertar o poste, o chão e, uma vez, o próprio escudo. Em todas, gritava com o rosto franzido inteiro, com uma concentração tão feroz que parecia estar sofrendo.
A Kohaku jogou uma pedrinha no boneco. Acertou.
“Hmpf”, disse a Kohaku.
“Mas olha”, disse Seraphine, ofegante e digna, “ninguém consegue me derrubar. Pode tentar.”
A Dagny jogou outro frasco nela. Explodiu. Seraphine saiu da fumaça sem um arranhão, só com o cabelo cor-de-rosa.
“Viu?”
A terceira candidata eu quase não vi.
Foi a Kohaku que apontou: debaixo da porta do estábulo tinha um bilhete dobrado, e atrás da porta tinha alguém tentando muito não estar ali.
Eu gostaria de me candidatar.
Li o regulamento da Guilda inteiro.
A cláusula 14 diz que equipe fiada precisa completar a primeira missão em sete dias ou perde o registro.
Achei que vocês não sabiam.
Lilith.
Eu não sabia.
Abri a porta.
Uma moça de capa cinza enorme, com o capuz até o nariz, um livro grosso apertado no peito e óculos redondos, deu um pulo pra trás tão grande que bateu num cavalo.
“D-desculpa!”
“Você é a Lilith?”
“S-sim.”
“Por que você não veio no pátio?”
Ela abriu a boca, fechou, abriu de novo. Aí o cavalo, que também não tinha gostado do empurrão, mordeu a capa dela e puxou.
A capa abriu inteira.
Por baixo tinha uma roupa preta justa de gola alta, uma saia curtíssima com barra violeta, meias pretas até a coxa e um corpo que aquela capa estava fazendo um trabalho heroico pra esconder. Asinhas de morcego nas costas. Uma cauda fina com a ponta em forma de coração. Dois chifrinhos enrolados no meio do cabelo rosa-escuro.
Súcubo.
A cara dela ficou da cor do cabelo em meio segundo.
Eu virei o rosto pra parede do estábulo com uma velocidade que eu não sabia que tinha. Não foi rápido o suficiente pra Kohaku, que me deu um tapa na nuca mesmo assim.
“Por que isso?”
“Preventivo”, ela disse.
“É a roupa da minha raça”, explicou Lilith, depois, sentada num fardo de feno, enrolada até o queixo. “É tradicional. Eu não gosto. Por isso a capa.”
“E você quer ser aventureira.”
“Eu sei ler mapa, sei as leis da Guilda, sei o ponto fraco de cento e doze monstros e sei cozinhar.” Ela falava pro livro, não pra mim. “Não sei lutar e desmaio se alguém elogia minha roupa.”
A Dagny levantou a mão.
“Eu acho sua roupa linda.”
A Lilith desmaiou.
Eu olhei pra minha equipe.
Uma deusa que chorava. Uma alquimista que explodia. Uma cavaleira que não acertava. Uma súcubo desmaiada no feno.
A Elina, que tinha vindo ver da porta do pátio, apertou os lábios de um jeito profissional.
“Quatro nomes?”, perguntou.
“Cinco”, eu disse.
Ela registrou. Deu pra gente uma placa de madeira: Equipe Provisória nº 44, Patente Pedra.
E um papel.
“A cláusula 14 é verdade”, disse Elina. “Sete dias. Essa é a missão mais barata do quadro. Ninguém pega faz um mês.”
MISSÃO: Colheita na Floresta de Brumavel.
Recolher 30 cogumelos-dourados.
Pagamento: 3 moedas de prata.
“Por que ninguém pega?”, perguntei.
Elina deu o sorriso mais cansado do mundo.
“Porque os cogumelos andam.”
Fim do capítulo 2
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