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A Pior Equipe de Rosengard

Capítulo 2: Precisa-se de aventureiros

16 de set de 2026 · 6 min de leitura

No pátio da Guilda, uma explosão de fumaça colorida sai da poção da anã Dagny, a cavaleira dracônica Seraphine erra um boneco de treino e a súcubo Lilith espia escondida atrás da capa, enquanto Takumi e Kohaku assistem horrorizados

“Então vocês não têm dinheiro”, disse Elina.

“Não”, eu disse.

“Nem membros.”

“Não.”

“Nem roupa seca.”

“Isso a gente está resolvendo por evaporação.”

Kohaku, do meu lado, torcia uma das caudas em cima do chão da Guilda. Um aventureiro com cara de urso escorregou na poça e xingou em três idiomas.

Elina fechou os olhos por um segundo, do jeito que eu fechava no terceiro cliente bêbado da noite.

Eu conhecia aquele olhar. Era o olhar de alguém que queria que a gente fosse embora, e que também queria que o turno acabasse, e que, se eu oferecesse um jeito de as duas coisas acontecerem, ia aceitar.

“Elina”, eu disse. “Proposta.”


“Você registra a gente hoje, fiado. Em troca, a gente paga as duas moedas de prata mais um décimo do que ganhar na primeira missão. E a gente sai do seu balcão agora e não volta até ter os quatro nomes.”

Elina abriu os olhos.

“Um décimo?”

“Um décimo.”

Ela pensou. Eu vi a conta passando atrás da testa dela: dois estranhos molhados, uma chance mínima de sucesso, e um balcão livre em trinta segundos.

“Aceito”, ela disse.

E o ar entre nós dois acendeu.

BARGANHA CONCLUÍDA.
Partes: Takumi Arata e Elina (Guilda de Rosengard).
Termos: registro imediato, fiado. Pagamento de 2 moedas de prata + 10% da primeira missão. Saída imediata do balcão até haver 4 membros.
Quem descumprir perde exatamente o que prometeu.
Observação: parabéns pela primeira barganha. Foi meio sem graça.

Uma janela dourada, flutuando no meio da Guilda, com moldura cheia de arabescos e um selo brilhante no canto.

Elina olhou pra janela. Olhou pra mim.

A Kohaku olhou pra última linha.

“Eu não escrevi isso”, ela disse, rápido demais.


A gente dormiu no estábulo da Guilda naquela noite, porque o estábulo era de graça e a Kohaku se recusou a dormir no chão da praça “como uma plebeia”.

Eu escrevi o anúncio num pedaço de papel que a Elina me deu, com uma pena que ela também me deu, e que ia entrar na conta.

PRECISA-SE DE AVENTUREIROS.
Equipe nova, com deusa (verdadeira).
Não exigimos experiência.
Não oferecemos salário.
Testes amanhã, no pátio, ao meio-dia.

“Por que você colocou ‘verdadeira’ entre parênteses?”, perguntou a Kohaku.

“Pra ninguém achar que é propaganda enganosa.”

“E por que tá entre parênteses, como se fosse um detalhe?”

Eu fui dormir.


Ao meio-dia apareceram três pessoas.

A primeira chegou empurrando um carrinho de mão cheio de frascos, que tilintavam a cada pedra do calçamento.

Era uma anã. Um metro e quarenta, tranças ruivas grossas com argolas de latão, óculos de proteção na testa, um avental de couro chamuscado e um corpete marrom que obviamente tinha sido feito sob medida por alguém que levou o trabalho muito a sério. Tinha sardas, um dente da frente lascado e o sorriso de quem ia explodir alguma coisa.

“Dagny Emberforge”, ela disse, apertando minha mão com força de ferreiro. “Alquimista. Trinta e quatro anos. Vou logo avisando que fui expulsa da Guilda dos Alquimistas, que a acusação era falsa e que não quero falar disso.”

“Tudo bem.”

“Quer ver uma poção?”

“Quero.”

Ela pegou um frasco azul.

“Poção de Força”, anunciou. “Um gole e você levanta um boi.”

E jogou o frasco no chão.


Eu não sei por que ela jogou no chão. Ela também não soube explicar depois.

O frasco estourou e subiu uma nuvem de fumaça verde, depois rosa, depois dourada, com faísca. Todo mundo no pátio começou a soluçar ao mesmo tempo. A fonte do outro lado da praça ficou roxa. Um pombo que passava ficou do tamanho de um gato e foi embora ofendido.

“Isso não era pra acontecer”, disse Dagny, soluçando, completamente feliz. “Mas olha o pombo! Olha o tamanho do pombo!”


A segunda candidata veio a pé, e o chão tremia um pouco.

Um metro e oitenta e cinco. Armadura prateada e vermelha polida até brilhar, moldada no corpo de um jeito que deixava claro que a armadura sabia exatamente o que estava protegendo. Cabelo preto até a cintura. Dois chifres pretos pra trás. Uma cauda de escamas vermelhas. Um escudo do tamanho de uma porta.

“Eu”, disse ela, erguendo a espada pro céu, “sou Seraphine Vael’drakar, da linhagem dos Dracos Carmesins, e vim oferecer minha lâmina à causa mais nobre desta cidade!”

“É um anúncio de equipe sem salário.”

“Então é a causa mais nobre de todas!”

Eu apontei o boneco de treino no canto do pátio. Um boneco de palha, parado, amarrado num poste.

“Pode atacar ele?”

Seraphine sorriu como quem recebe um presente.

Ela correu. Gritou. Girou a espada num arco magnífico.

E errou.

Errou por meio metro. O boneco balançou com o vento.

Ela tentou de novo. Errou. De novo. Errou. Quarenta vezes. Eu contei. Em algumas ela chegou a acertar o poste, o chão e, uma vez, o próprio escudo. Em todas, gritava com o rosto franzido inteiro, com uma concentração tão feroz que parecia estar sofrendo.

A Kohaku jogou uma pedrinha no boneco. Acertou.

“Hmpf”, disse a Kohaku.

“Mas olha”, disse Seraphine, ofegante e digna, “ninguém consegue me derrubar. Pode tentar.”

A Dagny jogou outro frasco nela. Explodiu. Seraphine saiu da fumaça sem um arranhão, só com o cabelo cor-de-rosa.

“Viu?”


A terceira candidata eu quase não vi.

Foi a Kohaku que apontou: debaixo da porta do estábulo tinha um bilhete dobrado, e atrás da porta tinha alguém tentando muito não estar ali.

Eu gostaria de me candidatar.
Li o regulamento da Guilda inteiro.
A cláusula 14 diz que equipe fiada precisa completar a primeira missão em sete dias ou perde o registro.
Achei que vocês não sabiam.
Lilith.

Eu não sabia.

Abri a porta.

Uma moça de capa cinza enorme, com o capuz até o nariz, um livro grosso apertado no peito e óculos redondos, deu um pulo pra trás tão grande que bateu num cavalo.

“D-desculpa!”

“Você é a Lilith?”

“S-sim.”

“Por que você não veio no pátio?”

Ela abriu a boca, fechou, abriu de novo. Aí o cavalo, que também não tinha gostado do empurrão, mordeu a capa dela e puxou.

A capa abriu inteira.

Por baixo tinha uma roupa preta justa de gola alta, uma saia curtíssima com barra violeta, meias pretas até a coxa e um corpo que aquela capa estava fazendo um trabalho heroico pra esconder. Asinhas de morcego nas costas. Uma cauda fina com a ponta em forma de coração. Dois chifrinhos enrolados no meio do cabelo rosa-escuro.

Súcubo.

A cara dela ficou da cor do cabelo em meio segundo.

Eu virei o rosto pra parede do estábulo com uma velocidade que eu não sabia que tinha. Não foi rápido o suficiente pra Kohaku, que me deu um tapa na nuca mesmo assim.

“Por que isso?”

“Preventivo”, ela disse.


“É a roupa da minha raça”, explicou Lilith, depois, sentada num fardo de feno, enrolada até o queixo. “É tradicional. Eu não gosto. Por isso a capa.”

“E você quer ser aventureira.”

“Eu sei ler mapa, sei as leis da Guilda, sei o ponto fraco de cento e doze monstros e sei cozinhar.” Ela falava pro livro, não pra mim. “Não sei lutar e desmaio se alguém elogia minha roupa.”

A Dagny levantou a mão.

“Eu acho sua roupa linda.”

A Lilith desmaiou.


Eu olhei pra minha equipe.

Uma deusa que chorava. Uma alquimista que explodia. Uma cavaleira que não acertava. Uma súcubo desmaiada no feno.

A Elina, que tinha vindo ver da porta do pátio, apertou os lábios de um jeito profissional.

“Quatro nomes?”, perguntou.

“Cinco”, eu disse.

Ela registrou. Deu pra gente uma placa de madeira: Equipe Provisória nº 44, Patente Pedra.

E um papel.

“A cláusula 14 é verdade”, disse Elina. “Sete dias. Essa é a missão mais barata do quadro. Ninguém pega faz um mês.”

MISSÃO: Colheita na Floresta de Brumavel.
Recolher 30 cogumelos-dourados.
Pagamento: 3 moedas de prata.

“Por que ninguém pega?”, perguntei.

Elina deu o sorriso mais cansado do mundo.

“Porque os cogumelos andam.”

Fim do capítulo 2