Capítulo 1: Morto por um mochi

Eu morri às 23h58 do dia 31 de dezembro, atrás do balcão de uma loja de conveniência em Nakano, com a boca cheia de mochi.
Não foi heroico. Não teve caminhão, nem criança pra salvar, nem gato atravessando a rua.
Teve um mochi de validade vencida que eu peguei da prateleira porque ia pro lixo mesmo, e teve um cliente bêbado que escolheu exatamente aquele segundo pra perguntar se a gente vendia fogos de artifício.
Eu ri. O mochi desceu pelo caminho errado.
A última coisa que eu ouvi na Terra foi a contagem regressiva na televisão do canto, e o bêbado dizendo “moço, tá tudo bem?” com o tom de quem já sabia a resposta.
Feliz Ano-Novo pra mim.
Acordei numa sala branca sem paredes.
Tinha uma escrivaninha de madeira no meio do nada, uma cadeira de plástico na minha frente e, atrás da mesa, a mulher mais bonita que eu já tinha visto na vida.
Cabelo branco até a cintura, com as pontas douradas. Orelhas de raposa. Olhos dourados. Um vestido branco e vermelho de sacerdotisa que parecia ter sido costurado por alguém que nunca tinha visto uma sacerdotisa de verdade, porque o corte do lado da perna subia até um lugar que nenhum templo aprovaria.
Atrás dela, balançando devagar, tinha caudas. Eu contei nove. Depois contei de novo, porque achei que tinha errado.
“Senta”, ela disse, sem levantar os olhos de uma pasta.
Eu sentei.
“Takumi Arata. Vinte e quatro anos. Atendente noturno.” Ela virou uma página. “Sem família próxima. Sem dívidas. Sem feitos notáveis. Sem…”
Ela parou.
Leu de novo.
Os ombros começaram a tremer.
“Com licença”, eu disse. “Tá tudo bem?”
“Causa da morte”, ela conseguiu falar, com a voz esganiçada, “engasgo com mochi… vencido… enquanto ria de um bêbado…”
E aí ela explodiu.
Eu nunca vi uma deusa rir. Recomendo não ver.
Ela bateu na mesa. Caiu da cadeira. Rolou no chão branco com as nove caudas se debatendo. Chorou. Tentou falar “desculpa” duas vezes e as duas viraram um guincho.
“Vencido!”, ela gritou, deitada. “Você morreu por um mochi vencido!”
“Eu sei como eu morri. Eu estava lá.”
“Na virada do ano!”
“Também sei disso.”
Ela se levantou, se apoiou na mesa, olhou pra minha cara, e caiu de novo.
Foi aí que uma voz falou de cima. Não tinha dono. Parecia vir do teto, só que não tinha teto.
Aviso do Departamento de Almas.
Divindade KOHAKU, da Boa Sorte.
Infração: desrespeito grave a um falecido durante o atendimento.
Pena: rebaixamento imediato a divindade de campo.
Local de cumprimento: o mesmo destino do falecido.
A deusa parou de rir.
“Espera”, ela disse, olhando pra cima. “Espera, espera, espera. De campo? Tipo, lá embaixo? Com gente?”
A pena já foi registrada.
“Eu tenho nove caudas!”
Continua tendo.
Ela olhou pra mim com os olhos dourados cheios de lágrima, e dessa vez não era de rir.
“Isso é culpa sua”, disse.
“Eu estou morto.”
“É culpa sua mesmo assim.”
Depois de dez minutos de choro e uma tentativa de suborno ao teto, ela se recompôs, sentou e abriu um catálogo grosso como uma lista telefônica.
“Você vai pra Aldmere”, disse, fungando. “Mundo de fantasia. Espadas, magia, monstros, reino, Rei Demônio, aquela coisa toda. Todo mundo que vai ganha uma habilidade especial. Escolhe.”
Eu abri o catálogo.
Espada Sagrada do Amanhecer. Magia Suprema dos Sete Elementos. Olho que Tudo Vê. Corpo Imortal.
Do lado de cada uma tinha um número.
“O que é isso aqui do lado?”
“O preço. Em pontos de alma.” Ela deu uma olhada na pasta. “Você tem doze.”
A Espada Sagrada custava nove mil.
Eu folheei. E folheei. As páginas foram ficando mais finas, as habilidades mais estranhas, os preços menores. Invocar Guarda-Chuva. Falar com Pombos. Saber Sempre Onde Está o Norte.
Na última página, sozinha, tinha uma que custava exatamente doze.
Barganha.
Propõe um acordo a qualquer ser que entenda uma frase.
Se o outro aceitar, o acordo vira contrato.
Observação: ninguém escolhe essa.
“Por que ninguém escolhe essa?”
“Porque é inútil.” A deusa assoou o nariz na manga. “Você vai negociar com um dragão? Com um orc? Monstro não negocia, monstro come.”
Eu pensei em três anos de turno da madrugada. Em bêbado querendo cerveja depois da hora. Em cliente gritando que o troco estava errado. Em um homem de terno que uma vez tentou me pagar um lámen com um relógio.
Todos eles, no fim, aceitaram alguma coisa.
“Essa”, eu disse.
Ela me olhou como quem olha um cachorro comendo papelão.
“Tem certeza?”
“É a única que eu consigo pagar.”
“Justo.” Ela carimbou a ficha. “Então boa sorte.”
E aí uma luz dourada subiu do chão, e o chão sumiu, e eu ouvi, logo antes de apagar, a deusa gritando lá de cima:
“Espera! Eu vou junto! Me espera! Eu não sei como se desce!”
Caí sentado numa fonte.
Era uma praça de pedra, com casas de telhado vermelho e barracas de feira, cheia de gente. Um anão passou carregando um barril. Duas elfas conversavam num banco. Um homem com cara de lobo comprava pão.
Eu estava molhado até a cintura, de uniforme da loja de conveniência, no meio de um mundo de fantasia.
A deusa caiu em cima de mim três segundos depois.
A primeira coisa que ela fez, ainda na água, foi olhar pras próprias mãos, pras caudas, pro céu.
A segunda foi começar a chorar de novo.
“Eu não consigo voltar”, ela disse. “Eu tentei. Não abre.”
“É um castigo. Não é pra abrir.”
“Eu sou uma deusa!”
“Você é uma deusa sentada numa fonte.”
Ela parou de chorar, só pra me olhar com ódio.
“Kohaku”, disse, estendendo a mão molhada como se eu devesse beijar. “Divindade da Boa Sorte. Você pode me chamar de senhora Kohaku.”
“Takumi.” Eu apertei a mão dela. “Eu vou te chamar de Kohaku.”
Um guarda com armadura amassada explicou que a gente estava em Rosengard, cidade de fronteira, “o lugar onde todo aventureiro começa e onde a maioria para”. Apontou um prédio grande de madeira do outro lado da praça.
“Guilda de Aventureiros. Se vocês têm nada e querem alguma coisa, é ali.”
Tinha um balcão comprido, um quadro cheio de papéis e cheiro de cerveja. Atrás do balcão, uma moça de uniforme azul-marinho, rabo de cavalo de lado e o sorriso mais cansado que eu já vi fora de um espelho.
“Bem-vindos à Guilda de Rosengard. Meu nome é Elina.” Ela olhou meu uniforme molhado, olhou as nove caudas da Kohaku, e não comentou nenhum dos dois. “Vão se registrar?”
“Vamos”, disse a Kohaku, batendo a mão no balcão. “E quero saber onde fica o templo, porque eu vou exigir as oferendas que me são devidas.”
“A taxa de registro é de uma moeda de prata por pessoa”, disse Elina.
Eu olhei pra Kohaku. A Kohaku olhou pra mim.
Nenhum dos dois tinha um bolso sequer que não estivesse cheio de água.
“E tem mais um detalhe”, disse Elina, puxando um formulário. “A Guilda só registra equipes. Mínimo de quatro membros.”
Ela olhou pra nós dois.
“Vocês são dois.”
Fim do capítulo 1
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