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A Pior Equipe de Rosengard

Capítulo 3: A floresta dos cogumelos

18 de set de 2026 · 5 min de leitura

Na floresta de Brumavel, Seraphine sem a armadura derretida, só com a roupa de baixo, segura o casaco de Takumi, vermelha de raiva, enquanto ele fica de costas, Dagny recolhe prata derretida, Lilith lê atrás de uma árvore e cogumelos-andantes observam

Os cogumelos andavam.

Eu achei que era força de expressão. Não era.

Tinham a altura da minha cintura, chapéu vermelho com pintas brancas, perninhas curtas e grossas e uma cara emburrada de velho que acabou de ser acordado. Andavam em bando, uns quarenta, entre as árvores cobertas de musgo da Floresta de Brumavel.

E nas costas de cada um, crescendo do tronco como uma mochila, tinha um cogumelo pequeno e dourado.

“Os cogumelos-dourados só crescem nos cogumelos-andantes”, sussurrou Lilith, lendo o livro atrás de um tronco. “Tem que tirar das costas deles. Eles não gostam.”

“Quanto eles não gostam?”

Ela virou a página.

“Muito.”


A caminhada até lá tinha levado três horas. A Kohaku reclamou das três.

Reclamou do sol, da sombra, do barro, da falta de liteira, da minha falta de devoção e de um mosquito que, segundo ela, tinha feito isso de propósito.

A Dagny cantou músicas de taverna o caminho inteiro. A Seraphine marchou na frente com o escudo erguido, gritando “por aqui!” em bifurcações que ela não conhecia. A Lilith andou atrás, lendo e desviando de raízes sem olhar, como se tivesse o mapa da floresta decorado.

Tinha.

“Qual é o ponto fraco deles?”, perguntei.

“Não têm”, disse Lilith. “Mas são atraídos por calor. Seguem qualquer coisa quente.”

“Tipo fogo?”

“Tipo fogo.”

Eu olhei pra Dagny. A Dagny já estava sorrindo.


Antes do fogo, eu quis testar a minha habilidade. Me pareceu responsável.

Saí de trás do tronco com as mãos levantadas e fui até o cogumelo mais perto.

“Oi. Proposta. Você me dá o cogumelo dourado das suas costas e eu te dou…”

O cogumelo olhou pra mim.

E me chutou na canela.

BARGANHA FALHOU.
O alvo não entende frases.
Observação: é um cogumelo. O que você esperava?

“Você está escrevendo essas observações”, eu disse, pulando num pé só.

“Eu estou aqui do seu lado”, disse Kohaku, “como eu estaria escrevendo?”

Os outros trinta e nove cogumelos viraram na nossa direção ao mesmo tempo.


A Seraphine avançou primeiro, porque é o que a Seraphine faz.

“Pelos Dracos Carmesins!”

Ela correu pro meio do bando, girou a espada e errou três cogumelos seguidos. Os cogumelos se jogaram nela em grupo. Ela não caiu. Eles quicavam na armadura como bolinha em parede.

Foi aí que eu vi.

Toda vez que a espada descia, ela fechava os olhos. Apertava com força, a cara inteira franzida, como alguém esperando uma injeção.

Ela não erra porque é ruim, eu pensei. Ela erra porque não está olhando.

Guardei aquilo. Não era a hora.

“Kohaku!”, gritei. “Faz alguma coisa divina!”

A Kohaku estufou o peito, abriu os braços, e as nove caudas se abriram atrás dela num leque dourado. Foi, preciso admitir, bonito.

“Eu, Kohaku, Divindade da Boa Sorte, concedo a esta guerreira a minha bênção!”, ela proclamou, olhando pra ver se alguém estava vendo. “Que a fortuna guie sua lâmina!”

Uma luz dourada desceu sobre a Seraphine.

A Seraphine deu um passo, pisou num cogumelo, escorregou, caiu de costas e ficou presa de barriga pra cima, como uma tartaruga de armadura.

“…Não era pra isso acontecer”, disse a Kohaku.


“Dagny! Fogo! Agora!”

“Poção de Chama!”, gritou a Dagny, e arremessou o frasco vermelho.

O frasco quebrou na armadura da Seraphine.

Não saiu fogo.

Saiu uma fumaça prateada que chiou, e a armadura começou a derreter. A placa do peito escorreu como manteiga. As ombreiras pingaram no chão. As placas das pernas viraram poças brilhantes. Em cinco segundos, a cavaleira mais blindada de Rosengard estava deitada no musgo só com a roupa de baixo acolchoada que se usa por dentro da armadura, que era justa, curta e, com toda a sinceridade, não tinha sido pensada pra ser vista por ninguém.

Os trinta e nove cogumelos pararam.

Eu parei.

A Seraphine olhou pra baixo.

“AAAAAAH!”


Eu tirei o casaco verde e joguei em cima dela sem olhar, porque eu tenho princípios e porque a Kohaku estava a dois metros com a mão levantada.

“Obrigada”, disse a Seraphine, enrolada no casaco, que cobria um terço do que precisava cobrir. “Você é um homem de honra.”

“Eu sou um homem de casaco barato. Ele vai ser descontado da sua parte.”

A Dagny estava ajoelhada no chão, recolhendo prata derretida num frasco, emocionada.

“Poção de derreter metal”, sussurrou. “Eu nunca consegui fazer uma poção de derreter metal de propósito. Isso vale uma fortuna.”

“Dagny.”

“Eu sei, eu sei. Foco.”

Os cogumelos, passado o choque, voltaram a andar na nossa direção.


Foi a Lilith que salvou a missão. Sem sair de trás do tronco.

“A poção de hoje de manhã”, ela disse, baixinho.

“Que poção?”

“A Dagny fez uma no estábulo antes de sair. Estava cantando. Era de calor. Eu vi ela esquentar a água do balde com uma gota.” Ela empurrou os óculos no nariz. “Se ela jogar aquela ali, longe da gente, eles vão atrás. E ficam de costas pra nós.”

A Dagny procurou no cinto. Achou um frasco laranja pequeno.

“Esse aqui eu fiz enquanto cantava a do marinheiro bêbado”, disse, pensativa. “Não fiz nada de diferente.”

Ela jogou o frasco numa pedra a vinte metros.

Deu certo. Exatamente certo. Uma bola de calor alaranjada, forte e firme, sem explosão, sem cor esquisita, sem pombo gigante.

Os quarenta cogumelos viraram pra ela, marcharam e se amontoaram em volta da pedra como velhos em volta de uma fogueira.

De costas.

“Agora”, disse Lilith.

A gente foi de cogumelo em cogumelo, puxando os dourados das costas deles. Eles resmungavam e não se viravam. A Kohaku colheu um só e disse que tinha machucado a unha. A Seraphine colheu com uma mão e segurou o casaco com a outra.

Trinta cogumelos-dourados em quinze minutos.

A única poção que deu certo, eu anotei na cabeça, do lado da outra anotação, foi a que ela fez cantando.


A gente estava saindo da floresta, rindo pela primeira vez desde que eu morri, quando a Lilith tropeçou numa raiz.

Ela nunca tropeçava em raiz.

O capuz caiu.

E, em cima de um galho, a dez metros, alguém nos observava.

Era uma criatura pequena e magra, de pele cinza, orelhas pontudas, asas de couro e uma braçadeira violeta no braço, com um símbolo de duas asas de morcego.

Ela olhou pro cabelo rosa-escuro. Pros chifrinhos. Pro rosto da Lilith.

Os olhos amarelos se arregalaram.

“Senhorita Lilith?”

A Lilith ficou branca como papel.

A criatura abriu as asas, deu um guincho agudo e voou pro sul, na direção da fronteira, tão rápido que as folhas do galho ficaram balançando depois.

Ninguém falou nada por um tempo.

“Lilith”, eu disse. “Quem era aquele?”

Ela puxou o capuz até o nariz.

“Ninguém”, disse. “Vamos entregar a missão.”

Fim do capítulo 3