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Neko Novel
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A Entregadora do Outro Mundo

Capítulo 4: Endereço desconhecido

11 de set de 2026 · 5 min de leitura

Bia puxando Kael pela mão numa corrida sobre telhados de pedra à noite, com soldados e tochas na rua lá embaixo

O alçapão dava para um telhado inclinado, coberto de telhas de barro soltas, e a primeira telha que Bia pisou foi parar lá embaixo, na cabeça de um soldado.

“Ali em cima!”

“Desculpa!” gritou ela, por reflexo.

“Não peça desculpa pra quem quer te prender”, disse Kael, passando por ela com a espada na mão.

O menino da bolsa de couro subiu por último e fechou o alçapão com o pé. Era magro, tinha o nariz descascado de sol e a agilidade de quem fazia aquilo toda semana.

“Nilo”, se apresentou, já correndo. “Mensageiro de terceira classe. Pisa onde eu pisar, moça.”

Bia pisou onde ele pisou. Kael pisou onde ela pisou. A vila inteira virou uma escada irregular de telhados, varais e chaminés, e lá embaixo as tochas corriam pelas ruas acompanhando o barulho deles.

Era, Bia pensou, a pior corrida de entrega da vida dela. E ela já tinha subido a Rua Augusta de bicicleta com três pizzas.


Uma flecha de besta bateu numa chaminé a um palmo da cabeça dela e espirrou tijolo.

Bia se abaixou. Kael se virou, cortou a segunda flecha no ar do mesmo jeito que tinha feito na estrada e empurrou Bia para trás de um varal cheio de lençóis.

“Quantos?” perguntou ela.

“Muitos.”

“Isso não é um número!”

“Vinte. Trinta. Estão cercando a praça.”

Nilo apontou para longe, além das últimas casas, onde a vila terminava num rio escuro com uma ponte de madeira. Do outro lado, contra o céu roxo do fim da tarde, havia a silhueta de um moinho de vento sem metade das pás.

“Se a gente se separar, encontra no moinho velho do Brejo!” gritou Nilo. “Depois da ponte! Ninguém vai lá, dizem que é assombrado!”

“Ótimo”, disse Bia. “Adorei o ponto de encontro.”

Ela gravou a silhueta na cabeça. As pás quebradas. O telhado torto. Era o tipo de coisa que ela fazia sem pensar: decorar a fachada do lugar pra não errar a entrega.

Eles correram mais três telhados. No quarto, o telhado acabou.

Lá embaixo, uma rua larga cheia de tochas. Do outro lado, longe demais para pular, a próxima casa. Atrás deles, o barulho de alguém abrindo o alçapão.

Nilo não pensou duas vezes. Pendurou-se na calha, balançou e caiu dentro de uma carroça de feno que Bia nem tinha visto, rolou para o chão e sumiu num beco antes que os soldados virassem a cabeça.

Bia olhou para a carroça. Olhou para os próprios tênis gastos.

“Eu não vou conseguir fazer isso.”

“Eu sei”, disse Kael. Ele se colocou entre ela e o alçapão, com a espada levantada. “Quando eles subirem, você corre pro outro lado e desce pela calha. Eu seguro.”

“E você?”

“Eu cumpro a ordem. Levar a senhorita pra longe do castelo.”

“Kael, isso não é ordem, isso é você querendo morrer bonito.”

O alçapão abriu. O primeiro soldado subiu, com o sol dourado brilhando no peitoral branco. Kael o derrubou de volta pelo buraco com um chute. Subiu outro. E outro.

Bia se agachou atrás da chaminé com a mochila apertada contra o peito e fez a única coisa que sabia fazer.

“Painel.”

Entrega: carta lacrada
Destinatário: Kael Veyran
Aguardando confirmação de recebimento.

“Não, não essa. Eu quero fazer outra entrega. Nova entrega! Eu. Me leva pra um lugar seguro!”

O painel piscou, pensou e respondeu em vermelho.

Endereço inválido.
Informe um destinatário ou um endereço conhecido.

“Lugar seguro não é endereço?”

Endereço inválido.

“Você é pior que o app!” Bia fechou os olhos com força. As pás quebradas. O telhado torto. “Moinho velho do Brejo! Depois da ponte!”

Endereço reconhecido.
Atenção: remetente e pacote não podem ser a mesma pessoa.
Deseja se declarar pacote?
Somente o pacote será entregue.

Kael gritou alguma coisa. Um soldado tinha conseguido subir inteiro e agora eram dois contra ele, e um terceiro apontava uma besta direto para as costas da armadura escura.

Bia não leu a última linha direito. Não quis ler.

Ela saiu de trás da chaminé, correu os três passos até Kael e agarrou a mão dele com toda a força.

“Sim! Eu sou o pacote! Confirma!”


A luz azul começou pelos pés dela.

Subiu pelas pernas como água fria, entrou pela jaqueta, acendeu os cachos do cabelo. Os soldados pararam de lutar. A besta abaixou. Todo mundo em cima daquele telhado ficou olhando para a garota que brilhava.

Kael olhou para a mão dele segurando a dela e, pela primeira vez, Bia viu medo de verdade no rosto dele.

“Bia…”

Não era “senhorita”. Ela quis prestar atenção nisso. Não deu tempo.

O mundo dobrou.

Ela sentiu a mão dele na dela. Sentiu os dedos dele apertarem. E sentiu, no meio da luz, os dedos dele passarem pelos dela como se fossem feitos de fumaça, porque ele não era o pacote.

Só o pacote é entregue.

Bia envolta em luz azul no alto do telhado, estendendo a mão para Kael enquanto os dedos dos dois se desfazem em brilho


Cheiro de farinha velha. Madeira podre. Vento assobiando por um buraco.

Bia abriu os olhos e viu o céu clarinho da manhã através de um telhado torto.

Estava deitada no chão de tábuas de um moinho, com a mochila ainda nas costas e o corpo inteiro doendo como se ela tivesse feito dez horas de entrega seguidas subindo ladeira. Tentou levantar e o chão girou. Tentou de novo. Conseguiu sentar.

As pás quebradas rangiam do lado de fora. O moinho velho do Brejo. Endereço reconhecido. Entrega concluída.

“Kael?”

A voz ecoou lá em cima, entre as vigas.

“Kael!”

Ela levantou apoiada na parede e rodou o moinho inteiro. Os sacos de farinha rasgados. A escada quebrada. A porta pendurada numa dobradiça. Nenhuma armadura escura. Nenhuma capa. Nenhum barulho de bota.

A mão direita dela ainda estava fechada, do jeito que tinha segurado a dele. Ela abriu os dedos devagar. Não tinha nada ali.

Bia sentou no degrau da porta, olhando a ponte e, bem longe, a fumaça fina saindo de Brejo Alto.

“Painel”, pediu, e a voz saiu pequena. “A carta. Onde tá o destinatário?”

A luz azul demorou mais do que o normal para aparecer.

Entrega: carta lacrada
Destinatário: Kael Veyran
Status: não localizado.

Fim do capítulo 4