Pular para o conteúdo
Neko Novel
Aa

Letra

Largura

Entrelinha

Fonte

Use as setas ← e → para mudar de capítulo.

A Entregadora do Outro Mundo

Capítulo 3: A guilda dos esquecidos

08 de set de 2026 · 6 min de leitura

Bia e Kael numa viela estreita de pedra diante de uma porta de madeira com aldrava em forma de envelope

A mochila amanheceu mais pesada do que tinha dormido.

Bia sentiu antes mesmo de abrir o olho. Ela tinha usado a mochila de travesseiro, e agora parecia que alguém tinha enfiado um tijolo lá dentro durante a noite. Sentou, esfregou o rosto e encontrou Kael já de pé, com a fogueira apagada e a armadura inteira no lugar, como se não tivesse dormido nada.

“Bom dia pra você também”, resmungou ela.

“Partimos em cinco minutos, senhorita.”

Ela abriu a mochila. O envelope estava lá, igual, com o lacre vermelho e a letra bonita. Nada de tijolo. Só a sensação de que ele pesava o dobro.

“Tá. Painel. Aparece. Por favor.”

O retângulo de luz azul surgiu na frente dela, obediente como um cachorro bem treinado.

Entrega: carta lacrada
Destinatário: Kael Veyran
Status: destinatário localizado
Aguardando confirmação de recebimento.

“Aguardando confirmação”, leu Bia em voz alta. “É igual no app. Não adianta eu deixar o pacote na portaria, o cliente tem que confirmar. Senão fica pendente. E pendente pesa na minha nota.”

Kael não virou.

“Então vai ficar pendente.”

“Kael, sério. Pega a carta. Não precisa ler. Só pega, fala ‘recebido’, e eu paro de carregar um defunto nas costas.”

Ele parou de amarrar a bota. Ficou um tempo parado, olhando para o chão. Bia percebeu tarde demais o que tinha falado.

“Desculpa. Saiu errado.”

“Cinco minutos”, disse ele, e foi buscar água no riacho.

Ela olhou para o painel. Tinha uma linha nova, mais apagada, que ela não tinha visto antes.

Última movimentação: Guilda dos Mensageiros, Brejo Alto.


Brejo Alto ficava a meio dia de caminhada, exatamente no caminho do sul, e foi só por isso que Kael aceitou parar.

Foi o que ele disse, pelo menos.

A vila era um amontoado de casas de pedra encostadas umas nas outras, com roupa estendida nas janelas e cheiro de pão queimado. As pessoas olhavam para a jaqueta amarela da Bia como quem vê um papagaio no meio de galinhas. Uma criança apontou. A mãe puxou a criança.

“Eu me sinto em casa”, disse Bia. “Ninguém olha na minha cara, só na roupa.”

A faixa azul brilhava fraquinha no chão, visível só para ela, e dobrava numa viela tão estreita que Kael teve que andar de lado, com a bainha da espada raspando na parede. No fim da viela havia uma porta de madeira sem placa. A aldraba tinha formato de envelope.

Bia bateu duas vezes.

“Tá aberta, e eu sou cega, não surda”, respondeu uma voz lá de dentro.


O salão era maior do que a viela deixava imaginar. Do teto, pendurados em barbantes, balançavam centenas de cartas e pacotes, uns novos, outros tão velhos que o papel parecia folha seca. Não havia vento nenhum, mas eles balançavam mesmo assim. Velas em cima de cada mesa. Cheiro de cera e de poeira.

No meio de tudo, numa poltrona afundada, estava uma senhora muito velha, com uma trança branca que chegava ao chão e um xale marrom remendado, cheio de lacres de cera presos com alfinete. Os olhos dela eram completamente brancos.

Ela virou o rosto na direção deles antes que qualquer um falasse.

“O menino Veyran”, disse. “Tá mais alto. E mais triste. E trouxe uma coisa que cheira a chuva de outro mundo.”

“Mestra Odila.” Kael fez uma pequena reverência que ela não podia ver. “A senhorita Beatriz foi…”

“Bia”, corrigiu Bia.

“…foi invocada ontem pelo Sumo Sacerdote.”

“Eu sei quem ela é. Senti a carta acordar.” Odila estendeu a mão enrugada no ar. “Chega aqui, menina.”

Bia chegou. A mão da velha encontrou a manga da jaqueta, depois o zíper, depois a alça da mochila. Parou ali.

“Mensageira”, murmurou Odila. “Faz duzentos anos que não aparece uma dessas.”

“Na minha ficha diz isso mesmo. O pessoal do templo achou uma decepção.”

Odila riu. Foi uma risada seca, que virou tosse, que virou risada de novo.

“Claro que achou. O Aurel queria uma espada. Queria alguém pra ganhar uma guerra.” Ela bateu dois dedos no próprio xale, em cima dos lacres. “Sabe o que a última Mensageira fez, menina? Levou o Pacto da Balança até a mesa do Conselho. Duzentos anos de paz entre Valdoria e Ostrana, e a paz chegou nas costas de uma entregadora.”

Kael deu um passo à frente.

“A guerra é contra Ostrana?”

“Ninguém falou em guerra”, disse Odila. “Você falou.”

O silêncio que ficou foi do tipo que Bia conhecia bem: o de quando alguém sabe mais do que está dizendo e está esperando você perguntar a coisa certa.

“A carta”, disse Bia. “O painel falou que a última movimentação foi aqui. Foi a senhora que mandou?”

“Não. Aqui a gente guarda cartas presas.” Odila levantou o queixo para o teto, para as centenas de envelopes balançando. “Carta que alguém lacrou com pacto. ‘Entregue quando existir alguém capaz de entregar.’ Algumas estão esperando há cem anos. Uma delas saiu daqui ontem à noite sem ninguém tocar. Foi pro outro lado do mundo buscar quem fosse capaz.”

Bia sentiu os braços arrepiarem por baixo da jaqueta.

“Rua do Portal, número zero”, sussurrou.

“Não sei que rua é essa. Mas sei que o Aurel fez o ritual dele esperando um herói, e a carta passou na frente.” Odila sorriu, mostrando poucos dentes. “Você não foi invocada por acaso, menina. Você foi chamada por um pedido de entrega.”

Bia olhou para Kael. Kael olhava para o chão.

“Quem escreveu essa carta presa?” perguntou ele, baixo. “A senhora sabe.”

“Sei. E você também sabe, porque o nome tá escrito na frente.”

“Meu irmão morreu na estrada do norte. Ele não teve tempo de escrever nada.”

“Então você devia estar curioso.” A voz de Odila endureceu. “Ou continua fazendo perguntas só pros outros? Foi por fazer pergunta demais sobre a morte do Lior que arrancaram o brasão do seu peito, não foi?”

Kael apertou o maxilar. Não negou.

Bia olhou para a armadura escura, para o lugar liso no peitoral onde deveria haver um símbolo, e entendeu de repente o “rebaixado” que o rei tinha falado com tanto desprezo.

“Você perguntou demais”, disse ela. “E eles te mandaram pra estrada com uma coisa inútil, pra ninguém estranhar se você não voltasse.”

“Eu cumpro ordens, senhorita.”

“Os bandidos também cumpriram.”

Mestra Odila, idosa e cega, sentada numa poltrona no salão da guilda cheio de cartas penduradas, segurando a alça da mochila da Bia

Odila tateou a mesa ao lado da poltrona até achar uma caneca de chá frio e tomou um gole como quem assiste a uma novela boa.

“Ela é esperta, Veyran. Chata, mas esperta.”

“Obrigada. Eu acho.”

“Aqui é a guilda dos esquecidos, menina.” Odila apontou para as cartas penduradas sem precisar ver. “Ninguém lembra o rosto de quem entrega. Os reis lembram dos tratados. O povo lembra das guerras que não aconteceram. Ninguém lembra de quem andou três semanas na chuva pra levar o papel.”

Bia abriu a boca para fazer uma piada e não saiu nada. Ela pensou no motoboy da Paulista. Na foto dele no grupo. Na vida de todo mundo seguindo no dia seguinte.

“Eu lembro”, disse, e a voz saiu mais firme do que ela esperava.

Odila ficou quieta. Pela primeira vez, pareceu surpresa.


Um menino magro, com uma bolsa de couro atravessada no peito, entrou correndo pela porta dos fundos e quase derrubou uma mesa.

“Mestra! Soldados na praça! Com o sol dourado no peito!”

Kael já estava com a mão no cabo da espada antes de o menino terminar a frase.

“O templo”, disse Odila, sem se levantar. “O Aurel sentiu a carta acordar do mesmo jeito que eu senti. Só demorou mais, porque é burro.”

Lá fora, o barulho de botas de metal batendo na pedra encheu a viela. Muitas botas. Uma tocha passou pela janela e pintou as cartas penduradas de laranja.

Então uma voz grossa gritou do lado de fora, alto o bastante para a vila inteira ouvir:

“Por ordem do Sumo Sacerdote Aurel! A invocada e o cavaleiro Veyran devem se entregar!”

Uma pausa. E depois, mais baixo, como quem lê um detalhe no fim do papel:

“Vivos, se possível.”

Odila tomou o último gole do chá frio e apontou para uma escada estreita no canto do salão, que subia até um alçapão no teto.

“Pelos telhados”, disse. “E, menina. Aconteça o que acontecer, não solta essa carta.”

Fim do capítulo 3