Pular para o conteúdo
Neko Novel
Aa

Letra

Largura

Entrelinha

Fonte

Use as setas ← e → para mudar de capítulo.

A Entregadora do Outro Mundo

Capítulo 2: O cavaleiro que não sorria

04 de set de 2026 · 4 min de leitura

Bia e um cavaleiro de cabelo prateado caminhando por uma estrada de terra ao entardecer

Kael não pegou o envelope.

Ele olhou pro nome escrito embaixo do dele, ficou branco feito o mármore do salão e disse, com uma calma que dava mais medo do que grito:

“Guarde isso. Agora.”

E saiu andando.

Bia guardou, porque os dois guardas de lança ainda estavam olhando, e correu atrás dele.


A estrada pro sul era de terra batida e cortava campos de trigo tão dourados que pareciam filtro de Instagram. Fazia três horas que eles andavam, e Kael tinha falado exatamente onze palavras. Bia contou.

“Você pode pelo menos me dizer quem é Lior?”

“Não.”

Doze.

“Ele é seu parente? Ex? Credor? Porque, olha, eu entendo, eu também tenho umas mensagens que eu deixo no visualizado.”

Kael parou de andar. Não virou pra ela.

“Meu irmão. Mais novo. Ele era mensageiro do rei.”

“Tá, e ele…”

“Morreu. Faz um ano. Numa emboscada na estrada do norte. Eu devia estar escoltando ele e não estava.”

Ele voltou a andar.

Bia ficou ali parada no meio da estrada, com a boca aberta e a mochila pesando o dobro. Depois correu de novo.

“Desculpa. Eu não sabia.”

“Ninguém sabe o que acontece com mensageiros”, disse Kael, olhando pra frente. “Ninguém pergunta.”

Aquilo bateu num lugar dentro dela que Bia não esperava. Ela lembrou do motoboy atropelado na Paulista no ano passado. Da foto dele no grupo de entregadores, e de como a vida de todo mundo seguiu no dia seguinte.

Ela ficou quieta pelo resto da tarde.


Os bandidos apareceram quando o sol começava a descer.

Eram seis, saíram do meio do trigo com facões e arcos, e o líder tinha um sorriso com mais buraco do que dente.

“O cavaleiro sem brasão”, disse ele. “O rei mandou lembrança.”

Kael puxou a espada tão rápido que Bia só ouviu o som.

“Fique atrás de mim.”

“Eles disseram que o rei mandou lembrança? O mesmo rei que mandou você me levar? Isso não é uma escolta, é uma demissão com emboscada!”

“Senhorita. Atrás de mim.”

Uma flecha passou assobiando entre os dois. Kael cortou outra no ar. O líder riu e ergueu a mão, e mais quatro homens surgiram do outro lado da estrada. Dez contra um. Mesmo sem entender nada de guerra, Bia sabia fazer conta.

Ela abraçou a mochila contra o peito e pensou na coisa mais idiota do mundo, que era também a única coisa que sabia fazer.

Eu aceitei essa entrega. O destinatário é o Kael. O Kael precisa estar vivo pra receber.

O painel de luz se abriu na frente dela sem ela pedir.

Entrega em andamento.
Obstáculos na rota detectados: 10.
Recalculando rota.

“Recalculando rota?” Bia disse, em voz alta. “Você é o Waze?”

O chão tremeu.

O trigo, os dois lados inteiros de trigo, se deitou de uma vez, como se um vento gigante tivesse passado. Os bandidos foram junto. Todos os dez caíram de cara na terra, empurrados para fora da estrada como cones de trânsito, e a estrada se esticou na frente de Bia e de Kael, lisa, reta, com uma leve luz azul brilhando nas bordas.

Uma faixa. Uma ciclofaixa mágica.

O trigo deitado dos dois lados da estrada e uma faixa de luz azul se abrindo à frente de Bia e Kael, com bandidos caídos no campo

Rota liberada. Tempo estimado até o destinatário: 0 minutos.

Kael baixou a espada devagar e olhou pros bandidos gemendo no meio do trigo, e depois pra ela.

“O que foi isso?”

“Eu acho”, disse Bia, com a voz tremendo e um sorriso nervoso que não conseguia segurar, “que meu aplicativo não gosta de atraso.”

E pela primeira vez desde que ela tinha caído naquele mundo, Kael Veyran fez uma coisa que ela não esperava.

Ele quase riu. Durou meio segundo. Mas ela viu.


Eles acamparam longe da estrada, perto de um riacho. Kael acendeu uma fogueira sem dizer nada, e Bia ficou olhando o envelope no colo dela.

“Você vai ter que pegar em algum momento”, disse ela. “Eu não consigo desistir de uma entrega. Acho que literalmente não consigo. A mochila fica mais pesada toda vez que eu penso nisso.”

“Meu irmão morreu há um ano, Beatriz. Não existe nada que ele possa ter escrito que eu precise ler agora.”

“Bia. Só minha mãe me chama de Beatriz, e quando ela chama é porque eu fiz besteira.”

Ele não respondeu. Mas também não mandou ela guardar.

Bia e Kael sentados perto de uma fogueira à noite, ela segurando o envelope de lacre vermelho e ele olhando para o fogo

Bia virou o envelope pra ver o lacre na luz da fogueira, e o coração dela deu um tranco.

Ali, embaixo da cera vermelha, gravada em letras miúdas, tinha uma data. Ela não conhecia o calendário daquele mundo, mas o painel de luz se abriu sozinho e traduziu, prestativo:

Postado em: ontem.

Fim do capítulo 2