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Neko Novel
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A Entregadora do Outro Mundo

Capítulo 1: A última entrega

28 de ago de 2026 · 5 min de leitura

Bia, encharcada de chuva, parada ao lado da bicicleta olhando um portal de luz azul aberto num muro pichado de São Paulo

O aplicativo apitou às 23h47, e Bia soube na hora que era uma péssima ideia.

Estava debaixo da marquise de uma farmácia na Consolação, encharcada até a calcinha, com a bateria do celular em onze por cento e a corrente da bicicleta fazendo um barulho que ela preferia não investigar. A chuva de São Paulo tinha aquele humor de fim de mês: não parava, não aliviava, só mudava de ângulo pra entrar pela gola da jaqueta.

Nova entrega disponível.
Retirada: não informado.
Destino: Rua do Portal, 0.
Valor: R$ 187,00.

Ela leu três vezes. Cento e oitenta e sete reais era o que ela fazia num dia inteiro bom. Num dia ruim, era o aluguel da semana.

“Isso é golpe”, disse em voz alta, pra ninguém.

O dedo dela aceitou mesmo assim.

O mapa não mostrou rota. Mostrou só um ponto azul pulsando a duas quadras dali, num lugar onde Bia tinha certeza de que existia apenas um muro pichado e um terreno baldio. Ela passava por ali todo dia. Nunca tinha visto rua nenhuma.

Pedalou mesmo assim, porque cento e oitenta e sete reais.


O muro continuava lá. A pichação também. O que não estava lá ontem era a porta.

Não uma porta de verdade, com maçaneta e dobradiça. Era um retângulo de luz azul recortado no concreto, do tamanho exato de uma pessoa com uma bicicleta do lado. A chuva batia nele e não molhava. Simplesmente sumia.

Bia ficou parada, pingando.

“Tá. Tá bom. Eu tô cansada. Isso é cansaço.”

O celular vibrou.

Você chegou ao destino. Confirme a entrega.

“Entrega de QUÊ? Eu nem peguei nada!”

Ela olhou pra mochila térmica nas costas. Estava vazia desde as dez da noite. Tinha certeza.

Tinha quase certeza.

A mochila estava pesada.

Bia abriu o zíper devagar, do jeito que se abre uma mensagem de ex. Lá dentro, no lugar do nada, havia um envelope grosso de papel amarelado, fechado com um lacre de cera vermelha. Na frente, numa letra bonita demais pra ser de gente normal, estava escrito um nome que ela não conhecia.

Kael Veyran.

“Não. Não, não, não. Eu não vou entrar num buraco de luz no meio da Consolação por causa de um envelope.”

O aplicativo apitou de novo.

Entregas não concluídas podem afetar sua avaliação.

Bia tinha nota 4,98. Tinha sofrido por aquela nota.

Ela respirou fundo, segurou o guidão e atravessou.


A primeira coisa foi o silêncio. A chuva parou de existir, o trânsito parou de existir, o cheiro de asfalto molhado virou cheiro de vela e incenso. A segunda coisa foi o chão, que era de pedra, e que chegou rápido demais porque a bicicleta não veio junto.

A terceira coisa foram as pessoas.

Umas quarenta, talvez mais, todas de túnica branca, todas ajoelhadas em círculo ao redor de um desenho enorme brilhando no piso. Todas olhando pra ela com a boca aberta.

No alto de uma escada, um homem velho de túnica dourada e barba bem aparada abriu os braços como quem recebe um presente de Natal.

“O herói!” gritou. “A profecia se cumpriu! O herói de outro mundo atendeu ao chamado de Valdoria!”

Palmas. Choro. Alguém tocou um sino.

Bia caída no centro de um círculo mágico brilhante, cercada por sacerdotes de túnica branca ajoelhados

Bia se levantou, esfregou o joelho ralado e tentou, com toda a dignidade possível para alguém de legging molhada, entender em que parte do mundo ela estava.

“Oi. Boa noite. Desculpa atrapalhar a missa. Alguém aqui é o Kael?”

O silêncio voltou, agora de um jeito bem mais constrangedor.

O homem de dourado desceu os degraus devagar, olhando pra jaqueta amarela, pra mochila quadrada, pro tênis furado. A cara dele foi murchando degrau por degrau.

“Onde está sua espada?”

“Eu tenho uma bicicleta. Tinha.”

“Sua armadura?”

“Essa jaqueta é corta-vento. É o que dá.”

Ele ergueu a mão e um painel de luz surgiu no ar entre os dois, cheio de letras que Bia, por algum motivo, conseguia ler.

Nome: Beatriz Nunes
Classe: Mensageira
Habilidade única: Entrega Garantida
Tudo que você aceitar entregar chegará ao destino.

O homem leu. Leu de novo. Fechou os olhos.

“Sumo Sacerdote Aurel?” sussurrou alguém.

“Uma carteira”, disse Aurel, com a voz tremendo de raiva. “Gastamos três anos de mana do reino. Sacrificamos o tesouro do templo. E invocamos uma carteira.”

“Entregadora”, corrigiu Bia, porque tinha orgulho de algumas coisas.


O rei não quis nem descer do trono pra olhar pra ela.

Era um homem gordo, pálido, com uma coroa que parecia apertar a cabeça, e ele ouviu o relato do sacerdote com a expressão de quem descobre que o delivery veio errado.

“Tirem ela do castelo”, disse, abanando a mão. “Levem até a fronteira. Não quero a corte comentando isso.”

“Espera aí.” Bia deu um passo à frente, e dois guardas cruzaram as lanças na cara dela. “Vocês me puxaram pra cá. Eu tinha uma entrega. Eu tinha um aluguel. Alguém vai me mandar de volta?”

O rei nem olhou.

“Cavaleiro Veyran.”

Da fileira de guardas saiu um rapaz alto, de armadura escura sem nenhum brasão, cabelo prateado curto e uma cicatriz fina cortando a sobrancelha esquerda. Ele se ajoelhou sem fazer barulho nenhum.

“Majestade.”

“Você foi rebaixado e não tem mais nada pra fazer. Leve essa coisa até a fronteira do sul. E não volte antes de uma semana.”

“Sim, Majestade.”

Ele se levantou e olhou pra Bia pela primeira vez. Os olhos dele eram cinza, frios, cansados. Não havia raiva neles. Havia uma coisa pior: não havia nada.

“Me acompanhe, senhorita.”

Bia ficou parada, porque o cérebro dela tinha acabado de ligar os pontos.

Cavaleiro Veyran.

Kael Veyran.

Ela sentiu o peso da mochila nas costas, e dessa vez tinha certeza absoluta de que ele estava maior do que antes.

“Moço”, disse, com a voz meio falhando. “Por acaso seu primeiro nome é Kael?”

Ele parou no meio do salão. Pela primeira vez, alguma coisa mexeu no rosto dele.

“Como você sabe meu nome?”

Bia puxou a mochila pra frente, abriu o zíper e olhou para o envelope de lacre vermelho.

Só que agora, embaixo do nome dele, havia uma segunda linha que não estava lá antes.

De: Lior.

Fim do capítulo 1