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Neko Novel
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A Entregadora do Outro Mundo

Capítulo 5: Remetente

15 de set de 2026 · 5 min de leitura

Bia sentada na porta do moinho velho ao amanhecer vendo Nilo chegar puxando uma mula com Mestra Odila montada

A mula apareceu na ponte antes do sol terminar de nascer, e em cima da mula vinha a última pessoa que Bia esperava ver viva.

“Se você chorar, eu volto pra vila”, disse Mestra Odila, antes mesmo de a mula parar.

Bia não chorou. Quase. Levantou do degrau do moinho tão rápido que a cabeça girou de novo, e Nilo teve que segurar o braço dela.

“Calma, moça. Você tá com a cara de quem entregou a própria alma pelo correio.”

“Mais ou menos isso.” Ela olhou para trás deles, para a estrada vazia. “Cadê o Kael?”

Nilo tirou o gorro e ficou apertando o tecido nas mãos. Odila respondeu por ele.

“Vivo. Levaram ele.”

Bia soltou o ar que nem sabia que estava segurando.

“Ele lutou até o fim do telhado”, continuou a velha. “Derrubou sete. Aí um dos padres jogou um lacre de silêncio no peito dele, e ele caiu feito saco de farinha. Eu não vi, claro. Mas ouvi. Nilo viu.”

“Colocaram ele numa carroça fechada”, disse Nilo. “Cheia de lacre por dentro. Saiu pela estrada do norte, de volta pra capital.”

“Lacre de silêncio”, repetiu Bia. “Por isso o painel diz ‘não localizado’.”

“Um lacre de silêncio esconde qualquer coisa de qualquer pacto.” Odila desceu da mula com uma agilidade que não combinava com a idade, tateou a parede do moinho e se sentou no degrau. “Por isso eu uso o meu xale cheio deles. A gente que vive de carta aprende a sumir.”


Bia andou em círculo na frente do moinho três vezes. Na quarta, Odila perdeu a paciência.

“Para de pisar forte, menina. Você tá assustando a mula.”

“Eu preciso achar ele.”

“Você não sabe onde ele tá.”

“Eu sei pra onde a carroça foi.”

“Pra capital. Que tem quarenta mil pessoas, um castelo, um templo, três prisões e um esgoto. Boa sorte.”

Bia parou. Tirou a mochila das costas, sentou no chão de terra e abriu o zíper. O envelope continuava lá. Lacre vermelho. Kael Veyran. De: Lior.

“Quando o cliente some”, disse ela devagar, mais para si mesma do que para os outros, “a gente não fica rodando o bairro. A gente abre o pedido e olha o rastreio.”

“O quê?” perguntou Nilo.

“Painel. Rastreio da entrega.”

A luz azul apareceu. E dessa vez não era um retângulo pequeno: era uma coluna comprida, que desceu como um papel saindo de uma impressora, linha por linha.

Rastreio da entrega
Postagem: Santuário de correio da Estrada do Norte. Há 1 ano e 14 dias.
Remetente: Lior Veyran.
Condição do pacto: entregar quando existir alguém capaz de entregar.
Em espera: Guilda dos Mensageiros, Brejo Alto.
Mensageira encontrada: Rua do Portal, 0 (outro mundo). Há 3 dias.
Coleta: Beatriz Nunes.
Conteúdo: 1 carta. 1 documento anexo com selo real.

Nilo leu por cima do ombro dela, mexendo a boca.

“Moça. Tem um documento do rei aí dentro.”

Bia não respondeu. Estava olhando para a data. Um ano e catorze dias. Ela leu em voz alta, porque Odila não podia ver.

“Mas não faz sentido”, completou. “O lacre dizia ‘postado ontem’. Eu vi. Na fogueira.”

“O lacre marca quando a carta foi solta”, disse Odila. “Carta presa não conta como postada. Ela só fica escrita, esperando. O dia que o pacto achou você foi o dia que ela finalmente saiu pelo mundo.”

A velha ficou muito quieta depois disso.

“Repete a parte do santuário.”

“Santuário de correio da Estrada do Norte.”

Odila tirou do xale um lacre de cera velho, rachado, e ficou girando entre os dedos.

“O Lior aprendeu a ler e escrever aqui na guilda”, disse. “Era um menino magro, igual o Nilo. Falava demais, igual você. O irmão vinha buscar ele todo fim de tarde, sério igual um poste.” Um sorriso pequeno. “Quando cresceu, o Lior virou mensageiro do rei. Primeira classe. Brasão no peito. Eu nunca vi ninguém tão orgulhoso de um pedaço de pano.”

“O Kael disse que ele morreu numa emboscada.”

“Morreu. Um ano atrás. O rei mandou ele pro norte levar uma Ordem Real selada pro comandante da fronteira. Ele nunca chegou. Acharam o corpo na estrada, perto de um santuário de correio.” Odila apertou o lacre rachado na mão. “Mas a Ordem Real nunca foi encontrada. Os homens do rei viraram aquela estrada do avesso procurando.”

Bia olhou para a última linha do painel. 1 documento anexo com selo real.

“Ele colocou a ordem dentro da carta”, sussurrou. “Antes de morrer. E lacrou com um pacto pra ninguém conseguir pegar.”

“Pra ninguém conseguir pegar”, repetiu Odila, “até existir alguém capaz de entregar.”

O vento passou pelas pás quebradas e o moinho gemeu inteiro.

“É por isso que o Aurel quer a carta”, disse Bia. “Não é por mim. Nunca foi por mim.”

“Ninguém invoca um herói de outro mundo pra ter paz, menina.” Odila guardou o lacre. “Invoca pra ganhar uma guerra.”


Eles pegaram carona numa carroça de repolho de um mensageiro amigo de Nilo, e Bia passou o dia inteiro deitada entre os repolhos, olhando o painel.

Não localizado.

Não localizado.

Não localizado.

Ela tentou de todo jeito. Pediu “localização aproximada”. Pediu “último endereço”. Pediu por favor. O painel continuava educado e inútil.

“Você devia dormir”, disse Nilo, que conduzia a mula ao lado da carroça.

“Eu durmo quando ele confirmar o recebimento.”

“Isso é alguma reza do seu mundo?”

“É o jeito que eu trabalho.”

Odila, sentada na frente com o xale na cabeça, falou sem se virar.

“Um lacre de silêncio não dura pra sempre. Eles vão tirar ele da carroça em algum momento. E quando tirarem, se você ainda estiver segurando a carta…”

“A carta sabe onde ele tá.”

“A carta sempre soube. Só não tinha permissão pra falar.”

A capital apareceu no fim da tarde, grande e cinza, com o castelo lá no alto e, do lado dele, a cúpula branca do Templo brilhando com o último sol. Bia se sentou entre os repolhos e sentiu um frio no estômago. Da última vez que ela tinha visto aquela cúpula, estava de legging molhada no meio de quarenta padres.

Eles entraram pela porta sul misturados com outras carroças. Ninguém olhou para a jaqueta amarela dela escondida debaixo de um saco de juta. Ninguém olha para quem entrega repolho.

Estavam atravessando a praça do mercado quando o painel piscou sozinho.

Entrega: carta lacrada
Destinatário: Kael Veyran
Status: destinatário localizado.
Templo de Valdoria. Subsolo.

Bia pulou da carroça antes de Nilo conseguir segurá-la.

“Moça, espera!”

A faixa azul se acendeu no chão da praça, reta, clara, subindo as escadarias brancas até as portas do Templo. Bia correu por ela. As pessoas abriam caminho sem saber por quê.

Ela parou no último degrau, ofegante.

As portas enormes estavam abertas. Na frente delas, sozinho, havia um noviço de túnica branca segurando uma lanterna, como se estivesse ali há horas. Ele fez uma reverência educada.

“Mensageira Beatriz”, disse. “O Sumo Sacerdote estava esperando a entrega.”

Ele deu um passo para o lado, abrindo caminho.

“Ele pediu pra avisar que tem uma proposta de frete pra senhorita. Frete de volta.”

Fim do capítulo 5