Capítulo 6: Frete de volta

O noviço desceu tantas escadas que Bia parou de contar no terceiro andar abaixo da terra.
As paredes mudaram de mármore branco para pedra escura, e a pedra escura foi ficando úmida, e a luz da lanterna foi ficando menor. Ela seguia a faixa azul no chão, que descia junto com eles, sem nenhuma pressa, como se soubesse que o destinatário não ia a lugar nenhum.
“Posso fazer uma pergunta?” disse Bia.
“Pode, mensageira.”
“Vocês sempre recebem visita no porão, ou é só quando querem matar alguém?”
O noviço não respondeu. Mas as orelhas dele ficaram vermelhas.
O salão lá embaixo era redondo, com colunas grossas e um círculo mágico gravado no chão, menor e mais velho que o do ritual. Estava apagado.
Em volta, uns dez soldados de armadura branca com o sol dourado no peito. E, acorrentado a uma coluna com os braços abertos, sem a capa, com a armadura escura riscada e um fio de sangue seco na têmpora, estava Kael.
Ele levantou a cabeça quando ouviu os passos dela. Os olhos cinza ficaram arregalados.
“Não”, disse ele. “Não, não. Você não devia estar aqui.”
“Eu também tô feliz de te ver.”
“Senhorita Beatriz.”
A voz veio do outro lado do círculo. Aurel saiu de trás de uma coluna com a túnica branca e dourada impecável, a barba bem aparada e as mãos juntas na frente do corpo, como um homem prestes a abençoar alguém.
“Pontual”, continuou ele. “Uma qualidade rara. Principalmente numa carteira.”
“Entregadora.”
“Como preferir.”
Bia apertou a alça da mochila. Um dos soldados se mexeu na direção dela, e Aurel levantou um dedo sem nem olhar.
“Não precisa. Mostre a ela, capitão.”
O soldado mais próximo esticou a mão para a mochila. No instante em que os dedos dele encostaram no zíper, ele puxou o braço de volta com um grito, sacudindo a mão como se tivesse encostado num ferro de passar.
“Um pacote em entrega não pode ser tomado”, explicou Aurel, com a paciência de um professor. “Nem queimado, nem rasgado, nem roubado. Eu tentei a noite inteira pensar num jeito. Não existe. Os pactos antigos eram muito bem escritos.”
“Então a gente terminou a conversa.”
“Ao contrário. A gente começou.” Ele deu um passo para dentro do círculo. “Existe uma única pessoa que pode interromper essa entrega, senhorita. A própria mensageira. Por vontade própria.”
Ele abriu os braços, igual tinha feito no alto da escada no dia em que ela caiu no templo, e as linhas do círculo no chão se acenderam.
A luz que subiu do círculo não era azul nem dourada. Era cinza. Cinza de céu fechado.
E no meio dela, como uma janela aberta no ar, apareceu uma rua.
Asfalto molhado. Luz de farmácia refletida numa poça. Um muro pichado ao lado de um terreno baldio.
A Consolação.
Bia sentiu o cheiro antes de acreditar. Chuva no asfalto quente. Fumaça de ônibus. Ela ouviu uma buzina, e depois outra, e depois o barulho de uma moto passando rápido demais. Deu um passo sem perceber.
“O ritual de invocação tem um caminho de volta”, disse Aurel, bem baixinho, perto do ouvido dela. “Custa caro. Custou o que restava da mana deste templo pra manter essa porta aberta por alguns minutos. É a sua casa, senhorita. O seu aluguel. A sua chuva.”
Bia não respondeu. Ela estava olhando o muro.
Colado na pichação, meio descolado pela água, tinha um papel. Uma folha A4 impressa em casa, com a tinta borrada. No meio, a foto dela. A foto do crachá do aplicativo, com o cabelo preso e a cara de sono.
Em cima, em letra grande:
PROCURA-SE
Beatriz Nunes, 22 anos
Vista pela última vez na Consolação de jaqueta amarela
Qualquer informação ligar pra Dona Célia (mãe)

A garganta dela fechou.
Ninguém lembra o rosto de quem entrega. Ela tinha certeza disso. Tinha construído a vida inteira em cima dessa certeza. E a mãe dela tinha imprimido o rosto dela e colado num muro na chuva.
“Basta cancelar”, disse Aurel. “Diga ao seu painel. Entregue a carta nas minhas mãos por vontade própria, atravesse, e esqueça que Valdoria existe. Ninguém aqui vai esquecer da senhorita com mais facilidade do que a senhorita vai esquecer da gente.”
O painel se abriu sozinho na frente dela.
Solicitação de cancelamento detectada.
Cancelar entrega?
A mão dela subiu. O dedo ficou parado a um centímetro da luz.
“Vá pra casa, Bia.”
Ela se virou.
Kael estava olhando para ela da coluna, com os pulsos em carne viva por causa das correntes. A voz dele saiu firme. Não era ordem. Era outra coisa.
“Tem alguém procurando você”, disse ele. “Vá.”
Bia olhou para ele. Olhou para o cartaz. Olhou para a mochila.
Um ano e catorze dias. Um menino magro que falava demais, andando ferido por uma estrada até achar um santuário de pedra. Escrevendo uma carta com as mãos tremendo. Lacrando com um pacto porque sabia que não ia chegar vivo.
Alguém tinha andado na chuva pra levar aquele papel.
“Não”, disse Bia.
“Senhorita…”
“Eu não cancelo entrega.” Ela fechou a mão e o painel apagou. “Nunca cancelei. Nem com pneu furado. Nem com cachorro atrás. Nem com cliente me xingando no chat.”
O rosto de Aurel perdeu toda a paciência de uma vez.
“Então vai morrer nesse porão com ele.”
“Não vou, não.” Bia virou de frente para a coluna e levantou a voz. “Painel! O destinatário tá bem ali. A dez metros. Eu quero entregar. Agora.”
Destinatário localizado: 10 metros.
Obstáculos na rota detectados: 14.
Recalculando rota.
As correntes foram as primeiras.
Os elos se abriram um por um, com um estalo seco, como se alguém tivesse destrancado cada um com uma chave invisível. Kael caiu de joelhos. A coluna atrás dele rachou do chão ao teto.
Os dez soldados escorregaram para os lados do salão, empurrados por uma onda azul que saiu dos pés da Bia e varreu o piso, e bateram nas paredes feito cones de trânsito numa ventania.
Aurel ficou de pé, no meio do círculo, segurando a túnica.
A faixa azul correu reta, dos tênis da Bia até os joelhos do Kael, e iluminou o salão inteiro.
Bia correu por ela e se ajoelhou na frente dele.
“Tá inteiro?”
“Você é louca.”
“Isso é um sim?”
Kael quase riu. Durou meio segundo de novo. Ela contou.
Atrás deles, o portal cinza tremeu e começou a fechar, e a rua molhada da Consolação foi ficando pequena, pequena, até virar um ponto e sumir. Bia não olhou.
Uma grade de ferro no chão, perto da parede, se levantou sozinha com um rangido, e de dentro dela saiu a cabeça de Nilo, suja até as orelhas.
“O esgoto passa por baixo do Templo inteiro!” gritou ele. “A Mestra mandou dizer que avisou!”
Eles desceram pela grade e correram pelo túnel escuro com água até a canela, e o barulho dos soldados ficou para trás. Mas a voz de Aurel veio atrás deles pelo túnel, alta, rachada de ódio, ecoando nas paredes.
“Você recusou a única volta que tinha, carteira! E não mudou nada! Em três dias o rei declara guerra no Conselho dos Pactos! Nenhuma carta vai impedir isso!”
Kael parou de correr.
Nilo continuou alguns passos, percebeu e voltou. Bia parou ao lado dele, com a respiração cortando o peito.
No escuro do túnel, só com a luz azul fraquinha da faixa no chão, ela viu Kael encostar a mão na parede e fechar os olhos. Ficou assim um tempo. Depois abriu e virou para ela.
“Bia”, disse ele. “Me dá a carta.”
Fim do capítulo 6
O que achou deste capítulo?
Ainda sem avaliações.
Conversa
Comentários
Entre pra avaliar e comentar. Ler continua livre.
Ninguém comentou ainda. Seja a primeira pessoa.